segunda-feira, 20 de dezembro de 2010


Busquei no ar palavras que sustentassem o meu ser

não as encontrei e findo o temor

veio a esperança: jamais as encontrarei.


Enquanto ando pela chuva

sinto as lâminas que cortam a alma,

sou apenas parte do que desejo crescer.


Movimentos cercam os membros, iludem teus olhos

e me fazem bela, exótica no desejo...

Não serei a borboleta que voa visto que o peso do amor é insustentável.


Natasha Barbosa
( quadro "Bonjour tristesse" do Martin Eder)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Confissão desonesta


Acordei com um pequenino raio de Sol na mente, era lindo, luminoso. E ficava escondido, trêmulo, entre as camadas de lembranças e sensações.

Apesar do seu sorriso, de todos os bons momentos que passamos juntos e da imensa vontade que sinto de acariciá-lo, a sua luz fica escondida em mim. Deixar que ela cresça e tome forma não parece uma opção viável, por isso tento manter a outra d'eu em sua devida submissão.

Até esta manhã as posições estavam adequadas, nada parecia antecipar a evolução. Levantei com a mesma sede de café, encarei as escolhas com o sorriso comedido de sempre e não fui infeliz nos movimentos corriqueiros. Mas também não fui feliz, o meu correto é estar. Por que insisto nisto? Hoje - talvez apenas por hoje - acredito que possuo um lugar no mundo, não só o tenho como estou nele. Aqui sou completa não importando se estou serelepe ou tristonha, posso estar alheia a mim e ainda assim serei inteira. Um vazio preenchido por outros vazios. O pequenino luminoso não domina o espaço e nem agride aos outros que ali estão, mas ele cresceu. Continuo meu ser ativo, passeio entre os locais internos e externos sem muito alarde: um dia a mais do meu lugar no mundo.

Mas ele cresce.

Não estamos diante de uma revolução, de uma catástrofe ou qualquer outro evento que mereça a impressão, existem sentenças mudas e invisíveis.

Mas você cresceu.

Carrego comigo a luz que espera fugir, ela deseja ser generosa ao berrar alegrias no mundo... E também deseja ser egoísta com a concretização das suas pragas, nem todas as palavras são alegres (confuso?). Como ceder ante tal loucura? Ouvi que o corpo sempre dá um jeito de colocar à tona os escondidos, aquilo que guardamos esperando perder para sempre. Na pele pálida já possuo algumas marcas, erupções dos segredos socados fundo. Mesmo no desespero há um lado que raciocina e diz "Fundo. Ainda não é fundo o bastante! Bata, empurre mais. Engula o choro, menina."

O tempo passava como sempre, ante as surpresas e constatações nada fiz de diferente. Luz minha, irradia a beleza daquele olhar; pequena luz, faça o milagre da multiplicação no cristal das risadas dele. No meio do dia li do poeta os versos que inevitavelmente a tudo desencadearam:

"... sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme."

Não há um deus que dorme. Em mim você está acordado e agora a sua luz resplandece, invade todos os ocupados, os vazios e apesar do brilho cego, a tudo enxergo. Vamos ser honestos? Adoro fingir a crédula que em nada se firma. Sei o meu lugar no mundo: amo a mãe, a velhice deles, os cachos companheiros e gosto muito, muito, muito mesmo de você.


Natasha Barbosa
Arte do pintor Martin Eder

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Numa noite pela manhã.

Num vasto azul, mais vasto que o azul, estávamos Ulisses e eu. O barco era grande, bem grande, de onde eu estava, mal poderia ver suas extremidades; um pouco sujo, porém lindo. Sentados sobre uma espécie de baú conversávamos, e éramos íntimos eu já o conhecia!
            Tomei a liberdade de lhe fazer algumas perguntas e com um sorriso no rosto ele ia me dando algumas respostas.
            A primeira pergunta foi: como era conhecer um Deus de perto ?
            Com um breve sorriso, ele disse que era tão temeroso como olhar para dentro de si! Achei engraçado... mas entendi!
            Por alguns momentos pude ver os traços dos seus olhos, seu rosto, sua pele, seus sonhos! E pra falar a verdade, acho que às vezes ele esquecia de querer voltar à Ítaca! Vivendo tantas aventuras, quem gostaria de voltar? Seus cabelos eram castanhos, quase ruivos, deve ser o sol, seu nariz era delicado; em volto dos olhos muitas linhas falavam por ele, tinha uma barba, mas não tinha uma aparência de desleixo. As mãos, elas nunca estavam sós, sempre seguravam-se e conforme falava de certa forma elas se apertavam e soltavam.
            De palavras, eu não lembro muitas, mas lembro de algo importante.

-“As respostas de todas as perguntas estão dentro das próprias perguntas.”

            Fiquei pensando nisso, acho que foi ele que disse. A tolice é não enxergá-las antes de perguntar, ou enxergar, e mesmo assim perguntar por não acreditar nelas. Confesso que isso me tomou alguns minutos... mas, logo, a curiosidade me retomou o ser e voltei ao diálogo.
            Dessa vez antes que eu abrisse a boca, ao puxar um pouco de ar para falar, Ulisses levantou, cortou minha fala, esqueci o que ia dizer! Levantei também. Andamos até a beira do barco, olhei para suas mãos sobre a madeira. Mãos fortes, unhas grossas, acho que nunca havia visto mãos com tantas linhas nos dedos; parecia que ele tinha lidado com situações que exigissem muito delas. Pensando bem... ele é o Odisseu!
            Naquele momento, ele falou sobre o homem, sobre as certezas que temos, que perdemos. Lembro que pensei em algumas coisas, mas não consigo especificar. Como ele podia ser tão sábio? Enfrentar o ciclope tudo bem, mas saber sobre a mente humana?! Achei impressionante! Queria poder me lembrar...
            Nesse dia não anoiteceu. Talvez Cronos, quisesse ouvir mais. Estranho que não estávamos cansados. Pensei que deveria descançar, mas ele estava disposto a continuar a conversa.
            Sorrindo, me olhou, ele me seduzia, seus sonhos me movimentavam e os meus silenciavam o grande Ulisses. 

Juliana Sanches

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Fora!

Sinto sua falta,
Tanta falta que mal posso sentir
Dói tanto que não sinto nada
A felicidade me parece tão distante que criei uma ponte
Tão comprida que nunca quis atravessar
Da minha ponta mal pude ver o outro lado

Não me interessei em olhar mais uma vez
A alma sorriu em saber que ela estava lá
Fiquei mais triste
Mais completa
Mais inteira

Essa dor que preenche meu vazio
Me faz alguém melhor que quem sorri
E sou inteiramente forte
Conheço meus medos
Me apavoro
Amo meus pecados

Descobri
Do outro lado estava a tristeza
Bela e atraente
E a maldita felicidade sempre me acompanhou
Me fez um poeta ruim
Matou meu desejo de ser menos que nada 

Morri sorrindo
Doeu.

Juliana Sanches

Beatriz

Entre quatro paredes e um teto. Beatriz estava. Tinha em mãos um livro que lhe foi indicado por um professor, que ela não conhecia muito bem, porém conhecia o bastante para que ele a conhecesse bem. Antes de abrir o livro a moça olhava ao seu redor, como se fosse preciso que gravasse aquele momento, como se tudo aquilo lhe fosse escapar, olhava pro grande espelho ao lado da escrivaninha.
Sabia ela de alguma forma que de fato não voltaria após a leitura, e se perguntava como poderia ser tão forte essa certeza, sendo que não conhecia o livro nem seu conteúdo.
De uma brecha possível ouvir os sons da rua e um certo movimento na casa. Bia, se encosta levemente em sua cadeira, tenta sentir-se confortável, mesmo sabendo que o desconforto que a rodeava não era físico. Inutilmente levanta as pernas, e as apóia na cama ao lado. Parecia querer adiar aquela leitura com tanta intensidade quanto sabia que precisava ler.
Os sons ainda estavam lá. Ela abre lentamente o livro, usa de tanta delicadeza que uma valsa lenta quase toca esse momento. Ao ler as primeiras páginas ela se lembra vagamente de um passado esquecido. Já não se pode ouvir outro som além dos seus. Como se chorasse a alegria de se rever.
Olhar pro livro era olha pra dentro de si. Desejos intermináveis que aquela leitura nunca passe da ultima letra. O livro fala de Beatriz, e de quem mais o poder ler com os olhos mais profundos de seu ser. Livro espelho do interior. A caixa se abre.
A música toca nas mão da moça, uma alegria estonteante toma seu ser. Ela já pode ver. Nada mais faz sentido, e tudo se encontra ao seu redor. Deliciosamente as páginas vão sendo passadas. E vagarosamente a alma é decifrada pelos passos da bailarina.
Corpo. Luz. Vida. Beatriz nasceu novamente dentro de uma nota musical. A moça fecha o livro com tanto carinho, agradecendo a vida que lhe foi dada. Abre a porta de seu guarda-roupa, pega uma caixa empoeirada. Com cuidado abre. Tira sua sapatilhas antigas. Calça. E dança ao som de sua alma. Gira, gira, gira. Da vida aos tornozelos. Os ouvido escutam com tanta clareza.
A bailarina dança ! Morre. Alguém fechou a caixinha de jóias.

Juliana Sanches

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Sem abnegação, por favor.

Querido Samuel,

mais do que sangue do meu sangue, você é a personificação da humanidade que eu não possuo. Meu filho, sou mais sua vilã do que heroína, sou mulher antes e acima de tudo. Desde nova desejei a maternidade, sonhava com um bebê lindo, um ser que seria alegre e triste sem medo algum, alguém a ser rendido pelas amarras do amor.

Não, amar não é libertar, fazer o bem e menos ainda desejar a felicidade alheia. Se quero você bem é porque sua tranqüilidade me permitirá ser em sua alma, poderei estar bem ao repousar na sombra da sua frutífera alegria. Compartilhar? O verbo certo talvez seja roubar ou apropriar, mais o último já que sempre consentimos alegando a tal cumplicidade na relação a dois. Não se iluda com generosidades superficiais: nenhuma mulher permitirá a sua alegria com ela e com outras ao mesmo tempo, e olha que a sua alegria seria bem grande e completa. Em alguns casos ela consideraria lhe desejar algo bom após o término do relacionamento, mas apenas com o intuito de tranqüilizar a consciência - dela - e ser liberta das obrigações inerentes a posse. Meu bem, é o olho do dono que engorda o amor.

Contudo, meu filho, não é que eu não te ame.

Mas ás vezes é preciso insurgir e você precisa conhecer a dúvida. Imagina como me é difícil passar todos os momentos do meu dia pensando na qualidade da existência de alguém que não sou eu? Seu amor me dominou de tal forma que apenas reconheço a minha subjugação: sou a mãe apenas e nada posso mudar a respeito. Só de refletir nossa ligação meu corpo tem febre e minha mente bloqueia a concentração, devaneios me anulam.

Até que num dia cotidiano como todos os outros milhares que vivemos e os quais continuaremos vivendo, você sentiu fome. Apertou minha mão, sustentou o olhar e exigiu o alimento. Ali o mundo se abriu e transbordou em luz, disfarcei a sabedoria e respirei pausadamente para controlar o acelerado coração. Eu tenho a chance, é possível! Se não consigo fugir do afeto devoto que sinto, posso fazer algo muito maior: tenho agora a permissão para senti-lo! Em todos os momentos continuarei te amando, cuidando e virando a mesa com cuidado. Você usará a corrente amorosa que me prende, será a tua anuência aos meus cuidados e afetos que me fará vencer e ser.

-Filho, você quer umas bolachas junto com o seu leitinho?

Por Natasha Barbosa

DECÁLOGO DO PERFEITO CONTISTA

I

Crê num mestre – Poe, Maupassant, Kipling, Tchekov – como na própria divindade.

II
Crê que sua arte é um cume inacessível. Não sonha dominá-la. Quando puderes fazê-lo, conseguirás sem que tu mesmo o saibas.

III
Resiste quanto possível à imitação, mas imita se o impulso for muito forte. Mais do que qualquer coisa, o desenvolvimento da personalidade é uma longa paciência.

IV
Nutre uma fé cega não na tua capacidade para o triunfo, mas no ardor com que o desejas. Ama tua arte como amas tua amada, dando-lhe todo o coração.

V
Não começa a escrever sem saber, desde a primeira palavra, aonde vais. Num conto bem-feito, as três primeiras linhas têm quase a mesma importância das três últimas.

VI
Se queres expressar com exatidão esta circunstância – “Desde o rio soprava um vento frio” -, não há na língua dos homens mais palavras do que estas para expressá-la. Uma vez senhor de tuas palavras, não te preocupa em avaliar se são consoantes ou dissonantes.

VII
Não adjetiva sem necessidade, pois são inúteis as rendas coloridas que venhas a pendurar num substantivo débil. Se dizes o que é preciso, o substantivo, sozinho, terá uma cor incomparável. Mas é preciso achá-lo.

VIII
Toma teus personagens pela mão e leva-os firmemente até o final, sem atentar senão para o caminho que traçaste. Não te distrai vendo o que eles não podem ver ou o que não lhes importa. Não abusa do leitor. Um conto é uma novela depurada de excessos. Considera isso uma verdade absoluta, ainda que não o seja.

IX
Não escreve sob o império da emoção. Deixa-a morrer, depois a revive. Se és capaz de revivê-la tal como a viveste, chegaste, na arte, à metade do caminho.

X
Ao escrever, não pensa em teus amigos nem na impressão que tua história causará. Conta como se teu relato não tivesse interesse senão para o pequeno mundo de teus personagens e como se tu fosses um deles, pois somente assim obtém-se a vida num conto.

Horacio Quiroga

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Esse é o cais absoluto.

O que somos é liquido, é inverdade, é algo desprendido, perdido no horizonte da alma,

Fortaleza necessária, segurança, buscar por um cais,
Algo que seja uma mentira tão real quanto à verdade falsa que necessitamos crer.
E é essa irrealidade que nos permite acreditar,
Naquilo que só pode ser mentira, sendo que foi criado,
E só pode ser verdade, sendo que é real, absoluto, essencial!
Todo o necessário se torna a busca da raiz, do profundo,
Além da planície das águas, no espelho do mar da gente,
 Sobre essa falsa planície de águas profundas,
Um horizonte de desejos por algo firme ao peito, firme aos pés!
Sendo o cais absoluto quando meus pés o tocam,
Minha alma se assenta e meu ser repousa
Pedra triste e segura que não afunda até o fundo sublime
Oceanos amados pelas almas afogadas de precisões perdidas.
Nessas raízes de seres, sentidos evocados a superfície, plainam na pele da gente,
Como gotas que não podemos absorver, não escorrem, ali ficam.
Nesse cais de certezas pedidas, sofrido é aquele que não encontra o seu.
E feliz o é, por desumano ser, sendo que é livre.

Por Juliana Sanches

domingo, 7 de novembro de 2010

Da loucura

Uma pessoa só morre quando a enterramos e eu não costumo enterrar meus mortos.

Acho que sou louca. E tenho medo da loucura. Os sãos gostam de nos dopar, nos amarrar e nos fazer falar sobre como nos sentimos. Gosto falar de mim. Afinal, loucos, em geral, são egocêntricos, mas não com passarinhos cantando. Eles me irritam.

Os são gostam de saber de tudo, gostam da verdade, só esquecem que tenho a minha.

Também tenho dor, uma dor aguda, que não dói como as outras dores.

Não sei quando começou, nem sei se começa... se é congênita ou se talvez se deva àquele ocorrido.

Não me lembro como se fosse hoje, na verdade todos esses remédios mal me deixam lembrar como soletro meu nome. Isso por vezes é conveniente.

Me lembro como era lindo, como sorri, doeu. Estranho o fato de só não saber como esquecer aquilo.

Agora saí, fugi e posso sentir o vento e o ar entrando em meus pulmões. Isso é bom.

Talvez possa encontrá-lo e enterra-lo. Meus monstros vão me ajudar. Eles são meus companheiros e conversamos nos meus sonhos.

Meus monstros me dão conselhos. Mas uma boa menina não faz isso.

- Aplique o tranqüilizante.

- É uma dose grande...

- Ordens da família. Agora ela vai dormir algumas horas.


Thamires Gonçalves

OS FILHOS - meu melhor conto!



No fim eu estava nova, revigorada e forte como nunca fui. Não houve perdas em meu corpo e as lembranças dos conhecidos não eram tão fortes a ponto de serem lembradas. Os fatos só aconteceram porque eu não calei, escutei os versos de amor e, tola, entoei os meus.
Samuel veio com todas as dores que 11 horas de parto podem causar, veio silencioso e com os olhos entreabertos ao me observar. Em poucos dias estava forte, um rapaz lindo a andar pelos vastos. Disse que não iria retornar aos meus braços maternos, acreditava ser um grande herói destinado a salvar as crianças do mundo. Ouvi depois suas façanhas sem entusiasmo, temia pela violência que, invariavelmente, o podaria.
Passado um mês Guilherme chegou tão repentino quanto o ventre que cresceu em mim. Pensei que já estaria acostumada ao parir e a todas as suas contrações e ofegares, contudo, o corpo se constrói para ser destruído a cada nova dor. Nos mesmos poucos dias cresceu um jovem alegre, firme na mesma coragem de andar pelo mundo. Fechei meus ouvidos, mas não deixei de conhecer a vileza que o conduziria. Suas crueldades eram gritadas em minha janela por todos em imensos instantes e novamente temi pela violência.
Com Carlos não houve surpresa, apenas a dor cruciante. Sua beleza era comparável com as de seus irmãos, assim como a natureza máscula. Indaguei, pela primeira vez, qual seria o intuito de suas andanças. Ele sorriu e respondeu que não queria ser herói e nem vilão, apenas seria um homem qualquer, cujas ações teriam um pouco de tudo e um muito de nada. Novamente temi por aquele fruto desgarrado: ser homem, pura e simplesmente, atrairia uma violência maior a sua face.
Murilo nasceu na surpresa de não me causar dor e nem desespero, mas foi o filho para o qual meu ventre tomou uma coloração negra. Em poucos instantes ergueu a fronte e me chamou à maternidade, ele queria o alimento. Este filho não teve pressa em sair ao mundo, apesar do crescimento que já ultrapassa os irmãos. Ouvi as histórias de sua vida sem o medo da violência porque a boca que as contava estava ali, sem cicatrizes na carne rosada. Também fui apresentada ao fluxo que conduziria aquela existência: meu mais novo iria salvar e trazer ao lar os mais velhos, todos perdidos na ânsia de existir. Não temi por seu destino porque aquele era um poeta, um inventor de doces e amores a serem divididos pelas pessoas mesmo que estivessem escondidos no fundo. Talvez seu vazio fosse tão imenso, tão generoso que poderia anular todos os erros dos outros. Sonho com suas histórias e acordo em lágrimas, é a beleza mais triste que já vivi.
De uma só vez meus rebentos voltaram a mim, todos mudos apesar da boca de Murilo ser a única a estar costurada. Altivos na postura e apáticos na face, meu ventre os atraiu à tranquilidade. Um a um foram diminuindo ao encarar meus olhos secos de lágrimas, um a um eles retornaram.


Por Natasha Barbosa

LINDA NA PAREDE

-Posso tirar uma foto?
Bárbara recusou pela primeira vez de modo acanhado e assim fui achando que minha noiva era tímida. Menos mal, não desejo uma desavergonhada como esposa.
Passado o tempo quis registrar minha jovem em nossos passeios, adoro longas caminhadas e em sua companhia éramos do mesmo tamanho. Quando o Sol cintilava na sua face corada era o momento em que mais desejava fotografar Bárbara. Acho fascinante a luz que invade, destaca os tons e deixa os contornos suaves, difusos. Até a chegada do verão, em um dia quente como o esperado, não sabia que iria ser tomado em casamento. Foi num trajeto curto que perdi o tom, enquanto estava ao lado dela as idéias ficaram claras e óbvias: seria um crime contra todo o meu ser não ficar com ela.
Mas ela negava, no começo eram argumentos tímidos, falava que não era muito bonita e que não via sentido me gastar numa bobeira dessas. Realmente a sua beleza não era estonteante e nem desmedida, era minha. A cada dia que passa seus 18 vão se distanciando, se perdendo no ganhar do tempo.
Gostaria que fôssemos agora por todo o tempo, sonhei que mantinha Bárbara fresca e imutável. Poderia assim reter o nosso amor num instante... Comprarei logo uma moldura, de pedra, aço ou qualquer outro material de imensa resistência. Com carinho explicarei o desejo em nos eternizar, em mostrar aos futuros o quanto somos e seremos felizes.
Entre sorrisos dizia que a sua alma ficaria presa no papel, sorria e baixava os olhos perguntando se era meu desejo prender sua alma. No casamento todas as tentativas foram frustradas pela sua rapidez em virar o rosto, nem daquela que seria o destaque em nossa sala Bárbara aceitou o flash. Achei cômica a justificativa, parecia mais uma frase qualquer dada a desviar minha atenção.
Depois os argumentos ganharam agressividade; ficaram firmes no questionamento da minha obsessão em registrá-la. Falou que a ânsia em fotografá-la só demonstrava a minha pouca segurança em nosso amor, que eu estava era escancarando nossa efemeridade e que tentar capturar o instante seria destruir o mesmo. E mais, questionou a força de meus sentimentos por ela, uma lógica doentia, gritou que se eu a amasse de verdade não ficaria insistindo em recortar um pedaço dela enquanto o amor deveria ser pelo todo. Tentou explicar que a sua vida não era restrita ao meu olhar, mas que tinha grande alegria em ser o alvo dos meus olhos e que temia a minha obsessão pelo estável já que ela envelheceria. Tinha receio de não ser suficiente a lembrança da memória, que eu fosse em desatino procurar outras formas do reflexo que só existiria como reflexo.
O tempo passou com beijos, passeios e alegrias, nada interrompeu o fluxo suave do sermos em nós. Não há em nosso lar máquina ou vontade de fotografar, não seriam mesmo suficientes...
Foi preciso firmar a cabeça, limpar as mãos, os pregos e verificar se o ângulo estava bom. Os olhos permaneceriam fechados, sempre impedidos de me tragarem e de mostrarem o que não serão.
Perfeito, minha Bárbara ficou linda na parede.

Por Natasha Barbosa

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Textos meus!

Comecei a me buscar num passado que eu não conheço, numa vida que não vivi e que morro de saudade de viver. Talvez nesse passado tão inexistente eu tenha encontrado algo que me fez ter saudade.
E conforme fui conhecendo essas leituras peguei emprestado alguns novos olhos de ser. E me enxerguei de varias cores diferentes. Não li estes textos, eu os reconheci. De alguma forma eles fazem parte de mim. Completaram algum vazio que continua num vácuo completo pelo nada.
Da mesma maneira que pude perceber que os textos viviam numa áurea ausente nos dias. Então, lê-los me fez viver em momentos inexistentes...
Obras de arte, aparadas pelo tempo por serem sublimes nas suas experiências transcendentais, varrendo o mundo dos sentimentos alheios. Escorriam nelas vidas, não minhas, vidas nossas.
Minha vida aos poucos se torna sublime. Talvez eu sempre entendesse o perigo de viver. Sublime pode ser meu ser, minha alma, meus desejos, meus medos. Tão atraente quanto um abismo, tão linear quanto o oceano. Tão gigante quanto os meus suspiros de tédio.
Essas obras foram além de um estudo para uma matéria na universidade, foram belíssimos degraus esculpidos em diamantes cintilantes encontrados nos meus textos nunca escritos e lidos por mim.
Cada obra dessa me pertence como se fosse tudo que tenho na vida, tudo que possuo no além-homem. Eu fui mais que escritora, fui leitora viva e real. Sou a obra em cada pontuação. Vivo a obra em cada encarnação de dor.
E me torno romântica na minha alegria de ser mais que sou, ser mais que era, ser mais que serei. Meu romantismo me permite perfeição. E me torno exemplo de algo que não existe não pode existir e que ainda sim sou eu. Tão viva e quente como um feto.
E é aí que vivo meus dias pós leitura, é aí que mora minha alegria constante. Minha busca gritante pelo nunca visto! Como é bom procurar, como dói não viver! E como pode machucar fechar os olhos.
Mil facas entraram em mim! Os poemas! Eu li! Como pude ser tão cruel comigo. Me odiaria cem vezes a mais. Minha alma se tornou pequena. E não pude guardar nada além de tudo que tive.

Juliana Sanches.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Verdade

Dizem que finjo
ou minto
tudo que sinto

Mentira!

Mentir por amor,
Mentir pra casar,
Mentir pra descasar,
Mentir por prazer,
Mentir por sofrer,
Mentir por amor,
Mentir por desamor.

E viva o amor
- que se alimenta
do mentir
e padece por prazer -

Dizem que a poesia é incomunicável,
incomunicável é todo o meu ser.

Thamires Gonçalves