
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Confissão desonesta

Apesar do seu sorriso, de todos os bons momentos que passamos juntos e da imensa vontade que sinto de acariciá-lo, a sua luz fica escondida em mim. Deixar que ela cresça e tome forma não parece uma opção viável, por isso tento manter a outra d'eu em sua devida submissão.
Até esta manhã as posições estavam adequadas, nada parecia antecipar a evolução. Levantei com a mesma sede de café, encarei as escolhas com o sorriso comedido de sempre e não fui infeliz nos movimentos corriqueiros. Mas também não fui feliz, o meu correto é estar. Por que insisto nisto? Hoje - talvez apenas por hoje - acredito que possuo um lugar no mundo, não só o tenho como estou nele. Aqui sou completa não importando se estou serelepe ou tristonha, posso estar alheia a mim e ainda assim serei inteira. Um vazio preenchido por outros vazios. O pequenino luminoso não domina o espaço e nem agride aos outros que ali estão, mas ele cresceu. Continuo meu ser ativo, passeio entre os locais internos e externos sem muito alarde: um dia a mais do meu lugar no mundo.
Mas ele cresce.
Não estamos diante de uma revolução, de uma catástrofe ou qualquer outro evento que mereça a impressão, existem sentenças mudas e invisíveis.
Mas você cresceu.
Carrego comigo a luz que espera fugir, ela deseja ser generosa ao berrar alegrias no mundo... E também deseja ser egoísta com a concretização das suas pragas, nem todas as palavras são alegres (confuso?). Como ceder ante tal loucura? Ouvi que o corpo sempre dá um jeito de colocar à tona os escondidos, aquilo que guardamos esperando perder para sempre. Na pele pálida já possuo algumas marcas, erupções dos segredos socados fundo. Mesmo no desespero há um lado que raciocina e diz "Fundo. Ainda não é fundo o bastante! Bata, empurre mais. Engula o choro, menina."
O tempo passava como sempre, ante as surpresas e constatações nada fiz de diferente. Luz minha, irradia a beleza daquele olhar; pequena luz, faça o milagre da multiplicação no cristal das risadas dele. No meio do dia li do poeta os versos que inevitavelmente a tudo desencadearam:
"... sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme."
Não há um deus que dorme. Em mim você está acordado e agora a sua luz resplandece, invade todos os ocupados, os vazios e apesar do brilho cego, a tudo enxergo. Vamos ser honestos? Adoro fingir a crédula que em nada se firma. Sei o meu lugar no mundo: amo a mãe, a velhice deles, os cachos companheiros e gosto muito, muito, muito mesmo de você.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Numa noite pela manhã.
terça-feira, 16 de novembro de 2010
Fora!
Beatriz
sábado, 13 de novembro de 2010
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Sem abnegação, por favor.
mais do que sangue do meu sangue, você é a personificação da humanidade que eu não possuo. Meu filho, sou mais sua vilã do que heroína, sou mulher antes e acima de tudo. Desde nova desejei a maternidade, sonhava com um bebê lindo, um ser que seria alegre e triste sem medo algum, alguém a ser rendido pelas amarras do amor.
Não, amar não é libertar, fazer o bem e menos ainda desejar a felicidade alheia. Se quero você bem é porque sua tranqüilidade me permitirá ser em sua alma, poderei estar bem ao repousar na sombra da sua frutífera alegria. Compartilhar? O verbo certo talvez seja roubar ou apropriar, mais o último já que sempre consentimos alegando a tal cumplicidade na relação a dois. Não se iluda com generosidades superficiais: nenhuma mulher permitirá a sua alegria com ela e com outras ao mesmo tempo, e olha que a sua alegria seria bem grande e completa. Em alguns casos ela consideraria lhe desejar algo bom após o término do relacionamento, mas apenas com o intuito de tranqüilizar a consciência - dela - e ser liberta das obrigações inerentes a posse. Meu bem, é o olho do dono que engorda o amor.
Contudo, meu filho, não é que eu não te ame.
Mas ás vezes é preciso insurgir e você precisa conhecer a dúvida. Imagina como me é difícil passar todos os momentos do meu dia pensando na qualidade da existência de alguém que não sou eu? Seu amor me dominou de tal forma que apenas reconheço a minha subjugação: sou a mãe apenas e nada posso mudar a respeito. Só de refletir nossa ligação meu corpo tem febre e minha mente bloqueia a concentração, devaneios me anulam.
Até que num dia cotidiano como todos os outros milhares que vivemos e os quais continuaremos vivendo, você sentiu fome. Apertou minha mão, sustentou o olhar e exigiu o alimento. Ali o mundo se abriu e transbordou em luz, disfarcei a sabedoria e respirei pausadamente para controlar o acelerado coração. Eu tenho a chance, é possível! Se não consigo fugir do afeto devoto que sinto, posso fazer algo muito maior: tenho agora a permissão para senti-lo! Em todos os momentos continuarei te amando, cuidando e virando a mesa com cuidado. Você usará a corrente amorosa que me prende, será a tua anuência aos meus cuidados e afetos que me fará vencer e ser.
-Filho, você quer umas bolachas junto com o seu leitinho?
Por Natasha Barbosa
DECÁLOGO DO PERFEITO CONTISTA
I
Crê num mestre – Poe, Maupassant, Kipling, Tchekov – como na própria divindade.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Esse é o cais absoluto.
domingo, 7 de novembro de 2010
Da loucura
Uma pessoa só morre quando a enterramos e eu não costumo enterrar meus mortos.
Acho que sou louca. E tenho medo da loucura. Os sãos gostam de nos dopar, nos amarrar e nos fazer falar sobre como nos sentimos. Gosto falar de mim. Afinal, loucos, em geral, são egocêntricos, mas não com passarinhos cantando. Eles me irritam.
Os são gostam de saber de tudo, gostam da verdade, só esquecem que tenho a minha.
Também tenho dor, uma dor aguda, que não dói como as outras dores.
Não sei quando começou, nem sei se começa... se é congênita ou se talvez se deva àquele ocorrido.
Não me lembro como se fosse hoje, na verdade todos esses remédios mal me deixam lembrar como soletro meu nome. Isso por vezes é conveniente.
Me lembro como era lindo, como sorri, doeu. Estranho o fato de só não saber como esquecer aquilo.
Agora saí, fugi e posso sentir o vento e o ar entrando em meus pulmões. Isso é bom.
Talvez possa encontrá-lo e enterra-lo. Meus monstros vão me ajudar. Eles são meus companheiros e conversamos nos meus sonhos.
Meus monstros me dão conselhos. Mas uma boa menina não faz isso.
- Aplique o tranqüilizante.
- É uma dose grande...
- Ordens da família. Agora ela vai dormir algumas horas.
Thamires Gonçalves
OS FILHOS - meu melhor conto!
No fim eu estava nova, revigorada e forte como nunca fui. Não houve perdas em meu corpo e as lembranças dos conhecidos não eram tão fortes a ponto de serem lembradas. Os fatos só aconteceram porque eu não calei, escutei os versos de amor e, tola, entoei os meus.
Samuel veio com todas as dores que 11 horas de parto podem causar, veio silencioso e com os olhos entreabertos ao me observar. Em poucos dias estava forte, um rapaz lindo a andar pelos vastos. Disse que não iria retornar aos meus braços maternos, acreditava ser um grande herói destinado a salvar as crianças do mundo. Ouvi depois suas façanhas sem entusiasmo, temia pela violência que, invariavelmente, o podaria.
Passado um mês Guilherme chegou tão repentino quanto o ventre que cresceu em mim. Pensei que já estaria acostumada ao parir e a todas as suas contrações e ofegares, contudo, o corpo se constrói para ser destruído a cada nova dor. Nos mesmos poucos dias cresceu um jovem alegre, firme na mesma coragem de andar pelo mundo. Fechei meus ouvidos, mas não deixei de conhecer a vileza que o conduziria. Suas crueldades eram gritadas em minha janela por todos em imensos instantes e novamente temi pela violência.
Com Carlos não houve surpresa, apenas a dor cruciante. Sua beleza era comparável com as de seus irmãos, assim como a natureza máscula. Indaguei, pela primeira vez, qual seria o intuito de suas andanças. Ele sorriu e respondeu que não queria ser herói e nem vilão, apenas seria um homem qualquer, cujas ações teriam um pouco de tudo e um muito de nada. Novamente temi por aquele fruto desgarrado: ser homem, pura e simplesmente, atrairia uma violência maior a sua face.
Murilo nasceu na surpresa de não me causar dor e nem desespero, mas foi o filho para o qual meu ventre tomou uma coloração negra. Em poucos instantes ergueu a fronte e me chamou à maternidade, ele queria o alimento. Este filho não teve pressa em sair ao mundo, apesar do crescimento que já ultrapassa os irmãos. Ouvi as histórias de sua vida sem o medo da violência porque a boca que as contava estava ali, sem cicatrizes na carne rosada. Também fui apresentada ao fluxo que conduziria aquela existência: meu mais novo iria salvar e trazer ao lar os mais velhos, todos perdidos na ânsia de existir. Não temi por seu destino porque aquele era um poeta, um inventor de doces e amores a serem divididos pelas pessoas mesmo que estivessem escondidos no fundo. Talvez seu vazio fosse tão imenso, tão generoso que poderia anular todos os erros dos outros. Sonho com suas histórias e acordo em lágrimas, é a beleza mais triste que já vivi.
De uma só vez meus rebentos voltaram a mim, todos mudos apesar da boca de Murilo ser a única a estar costurada. Altivos na postura e apáticos na face, meu ventre os atraiu à tranquilidade. Um a um foram diminuindo ao encarar meus olhos secos de lágrimas, um a um eles retornaram.
Por Natasha Barbosa
LINDA NA PAREDE
Bárbara recusou pela primeira vez de modo acanhado e assim fui achando que minha noiva era tímida. Menos mal, não desejo uma desavergonhada como esposa.
Passado o tempo quis registrar minha jovem em nossos passeios, adoro longas caminhadas e em sua companhia éramos do mesmo tamanho. Quando o Sol cintilava na sua face corada era o momento em que mais desejava fotografar Bárbara. Acho fascinante a luz que invade, destaca os tons e deixa os contornos suaves, difusos. Até a chegada do verão, em um dia quente como o esperado, não sabia que iria ser tomado em casamento. Foi num trajeto curto que perdi o tom, enquanto estava ao lado dela as idéias ficaram claras e óbvias: seria um crime contra todo o meu ser não ficar com ela.
Mas ela negava, no começo eram argumentos tímidos, falava que não era muito bonita e que não via sentido me gastar numa bobeira dessas. Realmente a sua beleza não era estonteante e nem desmedida, era minha. A cada dia que passa seus 18 vão se distanciando, se perdendo no ganhar do tempo.
Gostaria que fôssemos agora por todo o tempo, sonhei que mantinha Bárbara fresca e imutável. Poderia assim reter o nosso amor num instante... Comprarei logo uma moldura, de pedra, aço ou qualquer outro material de imensa resistência. Com carinho explicarei o desejo em nos eternizar, em mostrar aos futuros o quanto somos e seremos felizes.
Entre sorrisos dizia que a sua alma ficaria presa no papel, sorria e baixava os olhos perguntando se era meu desejo prender sua alma. No casamento todas as tentativas foram frustradas pela sua rapidez em virar o rosto, nem daquela que seria o destaque em nossa sala Bárbara aceitou o flash. Achei cômica a justificativa, parecia mais uma frase qualquer dada a desviar minha atenção.
Depois os argumentos ganharam agressividade; ficaram firmes no questionamento da minha obsessão em registrá-la. Falou que a ânsia em fotografá-la só demonstrava a minha pouca segurança em nosso amor, que eu estava era escancarando nossa efemeridade e que tentar capturar o instante seria destruir o mesmo. E mais, questionou a força de meus sentimentos por ela, uma lógica doentia, gritou que se eu a amasse de verdade não ficaria insistindo em recortar um pedaço dela enquanto o amor deveria ser pelo todo. Tentou explicar que a sua vida não era restrita ao meu olhar, mas que tinha grande alegria em ser o alvo dos meus olhos e que temia a minha obsessão pelo estável já que ela envelheceria. Tinha receio de não ser suficiente a lembrança da memória, que eu fosse em desatino procurar outras formas do reflexo que só existiria como reflexo.
O tempo passou com beijos, passeios e alegrias, nada interrompeu o fluxo suave do sermos em nós. Não há em nosso lar máquina ou vontade de fotografar, não seriam mesmo suficientes...
Foi preciso firmar a cabeça, limpar as mãos, os pregos e verificar se o ângulo estava bom. Os olhos permaneceriam fechados, sempre impedidos de me tragarem e de mostrarem o que não serão.
Perfeito, minha Bárbara ficou linda na parede.
Por Natasha Barbosa
