segunda-feira, 20 de dezembro de 2010


Busquei no ar palavras que sustentassem o meu ser

não as encontrei e findo o temor

veio a esperança: jamais as encontrarei.


Enquanto ando pela chuva

sinto as lâminas que cortam a alma,

sou apenas parte do que desejo crescer.


Movimentos cercam os membros, iludem teus olhos

e me fazem bela, exótica no desejo...

Não serei a borboleta que voa visto que o peso do amor é insustentável.


Natasha Barbosa
( quadro "Bonjour tristesse" do Martin Eder)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Confissão desonesta


Acordei com um pequenino raio de Sol na mente, era lindo, luminoso. E ficava escondido, trêmulo, entre as camadas de lembranças e sensações.

Apesar do seu sorriso, de todos os bons momentos que passamos juntos e da imensa vontade que sinto de acariciá-lo, a sua luz fica escondida em mim. Deixar que ela cresça e tome forma não parece uma opção viável, por isso tento manter a outra d'eu em sua devida submissão.

Até esta manhã as posições estavam adequadas, nada parecia antecipar a evolução. Levantei com a mesma sede de café, encarei as escolhas com o sorriso comedido de sempre e não fui infeliz nos movimentos corriqueiros. Mas também não fui feliz, o meu correto é estar. Por que insisto nisto? Hoje - talvez apenas por hoje - acredito que possuo um lugar no mundo, não só o tenho como estou nele. Aqui sou completa não importando se estou serelepe ou tristonha, posso estar alheia a mim e ainda assim serei inteira. Um vazio preenchido por outros vazios. O pequenino luminoso não domina o espaço e nem agride aos outros que ali estão, mas ele cresceu. Continuo meu ser ativo, passeio entre os locais internos e externos sem muito alarde: um dia a mais do meu lugar no mundo.

Mas ele cresce.

Não estamos diante de uma revolução, de uma catástrofe ou qualquer outro evento que mereça a impressão, existem sentenças mudas e invisíveis.

Mas você cresceu.

Carrego comigo a luz que espera fugir, ela deseja ser generosa ao berrar alegrias no mundo... E também deseja ser egoísta com a concretização das suas pragas, nem todas as palavras são alegres (confuso?). Como ceder ante tal loucura? Ouvi que o corpo sempre dá um jeito de colocar à tona os escondidos, aquilo que guardamos esperando perder para sempre. Na pele pálida já possuo algumas marcas, erupções dos segredos socados fundo. Mesmo no desespero há um lado que raciocina e diz "Fundo. Ainda não é fundo o bastante! Bata, empurre mais. Engula o choro, menina."

O tempo passava como sempre, ante as surpresas e constatações nada fiz de diferente. Luz minha, irradia a beleza daquele olhar; pequena luz, faça o milagre da multiplicação no cristal das risadas dele. No meio do dia li do poeta os versos que inevitavelmente a tudo desencadearam:

"... sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme."

Não há um deus que dorme. Em mim você está acordado e agora a sua luz resplandece, invade todos os ocupados, os vazios e apesar do brilho cego, a tudo enxergo. Vamos ser honestos? Adoro fingir a crédula que em nada se firma. Sei o meu lugar no mundo: amo a mãe, a velhice deles, os cachos companheiros e gosto muito, muito, muito mesmo de você.


Natasha Barbosa
Arte do pintor Martin Eder