segunda-feira, 3 de outubro de 2011

(da fase dark)

Ultimamente tenho mantido meu verbo em silêncio,

Antes eu, que era tão soberba em criar,

Agora só penso na gula de receber

Tenho o olhar vago por vontade,

Fixar e perceber as cores é sentir o coração em movimento...

Hoje, ontem e alguns outros muitos dias atrás,

O meu pulso ficou em silencio.

Desconfio que eles fizeram um acordo pela minha sobrevivência

Quando tudo desabou não havia ar

Nem sentido que bombeasse o sangue,

Assim, como lamentar o fim da poesia?


Natasha Barbosa

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Algumas considerações ranzinzas




- Sutileza literária ou covardia amorosa: é imperdoável, mas, por favor, me perdoe. Ahã.

- Acordo, levanto, durmo... Alguém poderia me beliscar trazendo a realidade com um bom livro?

- Aprecio muito a honestidade, mas caso vá mentir ao menos use a imaginação.

- O amor é uma maldade confeitada com açúcar. Bonjour Diabète!






Nah Barbosa







sexta-feira, 5 de agosto de 2011

P.R.S.S.

Café e bolo,

a mãe do pai no abraço que acolhe

a mão que limpa o machucado

o ensino dos temperos

o sorriso que ouve

a paciência que corrige

riso de criança no vestido florido

Era uma vez a minha avó


Café e bolo...

o receio das notícias

a ida ao encontro

reunião na família

expectativa


Café e bolo?!

o excesso de flores

lamentos murmurados

o abraço cúmplice dos primos

a lágrima do filho


Café e bolo.

memória, sorriso, perda

a saída da cidade

o retorno ao lar...


Uma velha foto,

as cores de uma boa vida

Era uma vez a minha avó...

domingo, 29 de maio de 2011

boêmiaaaa....



Lembro das tardes na Lavradio: entardecer nas calçadas, mesas de risos e cores

Ando pelas calçadas apinhadas, esbarro em vestidos alegres e nas bermudas descontraídas

Paraíso? Parada inútil? Todos que ali estão sabem do muito e do pouco que se ganha

Apenas não sabem do pouco e do muito que se perde.


Com licença, amor, porque hoje não é Carnaval e a sem máscara eu sou feliz!


Natasha Barbosa

quarta-feira, 25 de maio de 2011

ESPÓLIO


Tenho medo de dormir e encontrar você
Sempre desperto, passos e sorrisos à frente
Sorrateiro e belicoso ao me perseguir
Manchas no meu lugar predileto

Fora muitas as mentiras em que me envolvi
Continuo tendo pavor das verdades, sou covarde
Porém, ah, porém, ouvi que era bela e audaz
Ironia? As mãos dadas são crueldade, andam por lá
Não me esconderei, não gritarei e até fingirei algum respeito

Foram muitas as madrugadas em que não dormi
E são vastas as manhãs ensolaradas, quentes, tranquilas... E sem você.


Natasha Barbosa

segunda-feira, 23 de maio de 2011

DAS ENTRANHAS SUPERFICIAIS

Paixão, amor...

Creio em páginas de perfumes antigos e novos

Busco conteúdos puros e devassos

Letras que avassalam meus órgãos

Trocam as veias de lugar alterando os percursos

Gerando lágrimas e outras unidades.

Paixão, amor...

Tudo que impulsiona minha respiração

E o nada que me inclina aos outros

Fui dada a uma ilusão viva, pequena, feliz

Tão normal a minha ilusão que parecia real.

Paixão, amor...

Sou força a seguir versos, contos,

Olhos de força, de vida, muito luminosos

Sou o pincel a me colorir no ar da esperança

Sou aquela que não nega o passado,

Mas que a cada dia vindo o desconhece.


Por Natasha Barbosa

terça-feira, 26 de abril de 2011

Quase não posso me lembrar.




Fui a um parque de diversão, não era bonito nem feio, era um parque. Dentro de mim nada se movida, e muitas bolas coloridas me mostravam o caminho dos brinquedos mais atraentes. Não me lembro muito bem quem estava comigo, acho que era ele. Mas acredito que ele não lembraria tanto assim de mim. No chão de pedrinhas picadas entre meus pedacinhos de eus construíam caminhos que me levavam pra longe.
Sei que não posso me lembrar muito bem, mas as vezes me lembro bem. Meu vestido era verde quase azul e ele vestia uma camisa vermelha, triste camisa vermelha. Acho que era o fim da tarde, naquela hora inesata que o sol fica alaranjado. O sol não era amarelo, nem a lua azul. Tudo me parecia um tanto rosado, menos eu.
Entrei em muitos brinquedos, não ri, eu já sabia de tudo. Não posso mentir que já sabia. Seus risos ironizavam tudo aquilo, e o cor de rosa foi ganhando um tom azulado, escuro. Mas não poderia me lembrar, fiz força pra esquecer. Meus pés poderiam ter ido em tantas direções que mal poderia dizer  porque não fui, excesso opções confundem decisões difíceis. Não poderia optar. Fiquei.
Naquele banco de tábuas paralelamente pregadas, me sentei. Ao lado da minha mão direita tinha um risco na madeira em forma de coração. La estava escrito um “p” pouco torto e um “s” escrito com força. O “s” provavelmente era muito amado ou odiado, tanto que entortou o “p”. Ele segurou a minha mão. Enterrou seus olhos no infinito. Não poderia ser mais claro. Sumiu. Não poderia me Lembrar de nada após isso, sumiu na minha memória. Não sei,  não vi. Sinceramente não me lembro de nada.
Realmente não me lembro desse dia, de bolas coloridas, camisa vermelha e céu que agora é negro.

JULIANA SANCHES

BEATRIZ



Entre quatro paredes e um teto. Beatriz estava. Tinha em mãos um livro que lhe foi indicado por um professor, que ela não conhecia muito bem, porém conhecia o bastante para que ele a conhecesse bem. Antes de abrir o livro a moça olhava ao seu redor, como se fosse preciso que gravasse aquele momento, como se tudo aquilo lhe fosse escapar, olhava pro grande espelho ao lado da escrivaninha.
Sabia ela de alguma forma que de fato não voltaria após a leitura, e se perguntava como poderia ser tão forte essa certeza, sendo que não conhecia o livro nem seu conteúdo.
De uma brecha possível ouvir os sons da rua e um certo movimento na casa. Bia, se encosta levemente em sua cadeira, tenta sentir-se confortável, mesmo sabendo que o desconforto que a rodeava não era físico. Inutilmente levanta as pernas, e as apóia na cama ao lado. Parecia querer adiar aquela leitura com tanta intensidade quanto sabia que precisava ler.
Os sons ainda estavam lá. Ela abre lentamente o livro, usa de tanta delicadeza que uma valsa lenta quase toca esse momento. Ao ler as primeiras páginas ela se lembra vagamente de um passado esquecido. Já não se pode ouvir outro som além dos seus. Como se chorasse a alegria de se rever.
Olhar pro livro era olha pra dentro de si. Desejos intermináveis que aquela leitura nunca passe da ultima letra. O livro fala de Beatriz, e de quem mais o poder ler com os olhos mais profundos de seu ser. Livro espelho do interior. A caixa se abre.
A música toca nas mão da moça, uma alegria estonteante toma seu ser. Ela já pode ver. Nada mais faz sentido, e tudo se encontra ao seu redor. Deliciosamente as páginas vão sendo passadas. E vagarosamente a alma é decifrada pelos passos da bailarina.
Corpo. Luz. Vida. Beatriz nasceu novamente dentro de uma nota musical. A moça fecha o livro com tanto carinho, agradecendo a vida que lhe foi dada. Abre a porta de seu guarda-roupa, pega uma caixa empoeirada. Com cuidado abre. Tira sua sapatilhas antigas. Calça. E dança ao som de sua alma. Gira. Da vida aos tornozelos. Os ouvido escutam com tanta clareza.
A bailarina dança ! Morre. Alguém fechou a caixinha de jóias.

JULIANA SANCHES

domingo, 17 de abril de 2011

O meu futuro num ado presente

Meu futuro não é feito de luz e nem com fé


Mas ele existe, anda por aqui


Não é com o olhar que o vejo, mas percebo sua eterna chegada pelos perfumes


Aroma de calor, de barba por fazer, sorriso divertido e boas músicas


O meu futuro é feito de contato, gargalhadas e mãos cúmplices


Nas noites percebo que não creio nas luminuras: eu quero são transparências!


Imagino o chão que pisarei e o roçar dos tecidos


Não é que apenas penso no futuro, mas é que o presente corre, me abandona


E o passado se faz dono e criador dos versos


No meu futuro... Ah, nele serei letras, sons e cores impronunciáveis


Não é necessário ver onde não há luz , é só passar


E quiçá entender que plantei ontem, este mesmo poema, no meu futuro.

Natasha Barbosa

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Bom dia com açúcar e sem afeto

Bom dia com açúcar e sem afeto

De manhã eu levantei, fiz café e lavei a louça

Hoje eu acordei e não voltei a dormir

Não por tristeza penso no sono, no frio da chuva e na paz dos sonhos esquecidos

Ando e considero cada levantar uma celebração, hoje eu levantei e andei

Como não pensar em voltar?

Tentei me sabotar com alegres ilusões de perfídia

Sentada e sentindo o Sol aquecer meus dedos

Penso que sou construída de sonhos e pele, sou leve

Não é só por beber o café ou escrever ou ler com prazer

Não somente pela força que se faz luta e pelos ferimentos que cantam vitória

É que todo dia luto para lembrar, para esperar, para aceitar e não gritar

São batalhas de esperança de vida

Caminhos que desabam aos movimentos de paixão

Não espero erguer firmezas, apenas levanto e ando

Somos justamente quem não queríamos ser

Conheço aquelas que me adotaram, vestiram e criaram

Tanto digo conhecer que anseio as horas, as falas e as comidas que nos unem

Em nossas conversas, a pressa se transforma no infinito de ouvir e ser espelhado

Quem não quer enxergar? Quem não quis?

Veriam meus olhos vazios, haveria vermelhidão e cansaço

Mas hoje eu acordei: não foi luta, é vida.


Natasha Barbosa

domingo, 3 de abril de 2011

III

O impossível sempre tido como impossível.

Tudo vivido e gozado quando era considerado inalcançável.

Mar de metáforas? Asfixia de emoções?

Fomos e somos exatamente como deveríamos ser.



Natasha Barbosa

quinta-feira, 31 de março de 2011

II

Não há gosto de vitória porque não era uma disputa, nem tenho passos que nos liguem.

Continuo correndo em (corre)dores sem ver você.

Temo os sons que poderiam me expor.

Palpitações.

E fico apavorada com os brancos do círculo dourado.


Contudo, ao mesmo tempo há risos na alegria cúmplice,

Acho que nenhuma amiga me deixaria só,

Dadas, as mãos são mais do que força física.

Não é por maldade que mantenho o olhar erguido, continuo visando a alegria.

Mesmo com a culpa que segura e puxa minha face,

Mantenho fundo a pureza e a certeza que tudo foi como deveria ser.


Deveríamos amar? Deveríamos perdoar?

Quem ousaria questionar o ajoelhar devotado?

Diferente do dever, os poucos foram sonhados, esperados e extasiados.

Poucos foram tão...!


Comigo, só carrego a ti.


Natasha Barbosa

segunda-feira, 28 de março de 2011

CONSIDERAÇÕES SOBRE O ESCONDIDO DO AMOR PASSADO

I



A covardia é simples e anda por aí

Ela é risonha, robusta e mesmo querida por todos nós.

Sem perceber gostamos da sua voz de promessas fáceis

E já conscientes apreciamos seus olhos e acalentamos seus abraços.

Quem nunca riu e sentiu a proteção do silêncio?

Qual o peso da ausência de ação?

Sem mágoas, sem hesitar e considerar vamos machucando, vamos ultrapassando.


A covardia anda por aqui,

Há rastros de espanto, lágrimas, sensações mortas carregadas por espectros de esperança.


Do dia anunciado entre cores e flores, apenas ela amanheceu.

Quem é um rato?


Natasha Barbosa

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Sem Volta

São muitas às vezes em que morri afogada. Ironicamente morro de medo de tragédias e catástrofes naturais, talvez por isso seja perseguida por elas. O ar costuma faltar nos locais em que todos estão bem. Tenho feito muito esforço para parecer normal, no meio de todos finjo não me desesperar com o futuro. Como andar sabendo que tudo vai cair? Sei que eu não só posso como irei cair e isso destrói qualquer passo futuro. Uma jovem falava em viver, em continuar justamente por saber o caminho, admiro a maquiagem usada no rosto, tão bonita! Na vez mais recente estava correndo com meu filho quando esbarrei com ela. Raissa é linda, tem um imenso sorriso que serve muito bem para esconder a raiva. Sem deixar de sorrir ela indicou o caminho por entre as árvores, falou do Sol que queimava e pediu, já conhecendo o passado, para ficar com a criança. Deixei.

***

— Eu também já fui como você!

— Natalice?! Como? Meu Deus como você?... O que você...?!

— Eu também já fui jovem como você...

Não tenho como disfarçar o espanto, o horror que sinto ao ver ele deitado em cima dela. Ela já não é nova, seu rosto enrugado não esconde as olheiras e nem as marcas do tempo malpassado. O cabelo liso, antes escuro, está longo e meio cinza, quase desbotado. Talvez eles também tenham vergonha de estarem ali. Ou apenas os fios possuam consciência da situação obscena e cruel em que se encontram.

— Conta, por favor, conta... — Como odeio amar aqueles olhos, a voz embargada dói fundo. As coisas não estão onde deveriam estar, há ordem na desordem métrica do mundo.

Apesar de estarem completamente vestidos, a cena é nojenta, eles se deleitaram no sexo. Vejo o abandono dos membros dele, os olhos vermelhos como se estivesse emocionado e o ouço pedindo para ela contar. Mas contar o quê? O tom é suplicante enquanto não consigo deixar de pensar na beleza daquele rosto. Gosto tanto dele que temo cada segundo em sua presença.

Não é para estarmos aqui, não sei como chegamos. Vejo que ele não nota a minha presença, continua a encarando e suplicando. Medíocre. Na minha frente é insuportável. Que engraçado, ele sabe.

Natalice continuou sem olhar para ele, sei que ela me adora, mas será que sabe que eu o amo? E ela insiste em falar:

— ... quando fui como você também era uma estudante e também tive um namorado. Éramos felizes, até que ele acabou comigo. Querida, não restou nada, ele foi atrás de mim e assim, talvez deitada, talvez complacente, ele acabou comigo. Por favor, não fique assustada, alguém também irá acabar com você. Não chore, guarde para um pouco mais tarde, eu prometo que não vai demorar.

Num rompante ela mudou o tom e entoou o canto mais belo que já ouvi. Você não vai saber como é, não irei convidar e nem compartilhar meu tormento. Como, você insiste? Leia um pouco do que poderia ter sido pronunciado:

— Ouvimos as esperanças que cercam seu lar, mas ninguém defendeu seu nome na rua. Sua filha desconhece a máquina do mundo, há homens que lhe anulam o corpo e há homens que lhe iluminam a mente. Bradamos orações para salvarem teu lar e no infortúnio a solidão não é cruel. A jovem já conheceu a chuva, mente e corpo formados pelos atos. Existe dentro de ti a força para negar o sangue. Irás maltratar o sentimento em mim para destruir o humano em ti.

A velha continuou deitada, não fez nenhum gesto e até parecia indiferente ao peso alheio ante seu corpo magro. Calou-se. E eu fugi.

A praia não é desconhecida, estive aqui não faz muitos anos. O sol vermelho também não me desagrada, li notícias dizendo que o novo astro era danoso aos seres humanos. Pode ser que sim, talvez isto explique os fatos futuros. Não gosto da areia, tenho pavor do mar e o vento só faz bagunçar meu cabelo. Raissa sentou ao meu lado e me deu um prendedor verde, falou que o cabelo ficaria seguro assim. Não precisei agradecer, ela sabe.

— Cadê o menino?

— Minha flor, você não precisa esconder. Eu também os vi deitados e sabia que ele estava velho, só não sabia que ela ainda vivia. Desculpe.

— Tudo bem, não importa... Por favor, vamos fingir que importou um dia. Raissa, não ria, é sério! – Se ela continuar rindo eu derreto, talvez só ela conheça o meu desejo. Poderia dar um abraço? Não perguntei.

— Florzinha, você é sempre tão a mesma. Não mudaria para aceitá-lo e menos ainda para enxergar. Vamos até a água? Aqui o mar é profundo e revolto, é quase certo que não voltaremos.

— Posso segurar a sua mão?

Quem nos observou viu que ela deixou e apertou mais forte enquanto andávamos. Contudo, apesar da visão privilegiada você jamais verá o retorno. Lá o amor chegou.

Natasha Barbosa
(Arte Tanz der träume, do Martin Eder, 2005.)




terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Querida, não me escreva...



Quando entrou em minha sala, estranhei sua pouca beleza. Sei que algum escritor famoso é o culpado pela imagem errônea que desenhei, pois depois de lê-lo passei a achar que toda Alice deveria ter um ar místico, heroico e que seria minimamente bonita. No entanto a minha Alice não é assim, ops, ela também ainda não é minha.

A sua queixa era simples e bem incomum: seus pais lhe deram uma infância feliz e a felicidade era tão plena que refletia até hoje, nos seus 22 anos.

Procuro sempre manter uma expressão comedida, confiável, porque é o esperado no meu ofício. E o esforço nem é muito, já que as pessoas, ao me procurarem tomadas pelo desespero, fazem o restante do trabalho ao depositarem em mim as suas esperanças. Contudo, com esta jovem foi necessário segurar o riso e a vasta seleção de comentários sarcásticos que vieram à cabeça.

As pessoas reclamam de problemas, de conflitos cujas feridas estão a doer. Claro que não são poucos os que aumentam a dor e os danos, que competem pela história de maior ruína.
Lembro de presenciar uma conversa entre duas senhoras e não ficar surpreso com o conteúdo. A mais velha chorava o péssimo casamento, a saudade dos filhos e a mágoa pela incompreensão dos rebentos, enquanto a mais nova, sem enumerar com clareza, afirmava ter sofrido tanto, mas tanto nesta vida, que a outra se sentiria abençoada pelos céus diante das várias desgraças. Ciente da minha posição e mais ainda consciente da ignorância delas em relação a minha pessoa, dei voz à ironia mental: “Então, para qual das duas devo entregar o troféu ‘Vida Vale de Lágrimas’? Aliás, as caixas de Lexotan são suficientes ou devo acrescentar uma garrafa de cachaça?”.

Vocês podem até imaginar o misto de surpresa e raiva que dominou aqueles olhares secos, mas duvido que entendam o prazer que senti... E a culpa, não esqueçamos da culpa. Há outras pessoas que intensificam a extensão do trauma e até os criam, dando condição física a sua imaginação. Alice, entretanto, era feliz e não negava a constância desse estado. A sua questão era o dano que a estabilidade de uma vida realmente satisfatória poderia causar na sua capacidade artística. Para ela, o prazer significava o encontro com a arte e a arte implicava justamente sentir o prazer. Costumava apreciar a beleza, em especial as naturais e gratuitas, dizia que as construídas possuíam intenções e esperas demais. Defendia, paradoxalmente, que uma boa dose de sofrimento seria o elemento catalisador essencial para qualquer criação artística. Alguns são órfãos de pais vivos ou mortos, outros amam sem resposta, uns apanham por respirar ou até sobrevivem pelo sofrer. Que justiça divina era esta que lhe concedera só alegrias? Como esperavam que ela se reconstruísse numa bela flor sem estar ao menos derrocada?

Minha – agora posso declarar a posse, indevida, mas concluída – jovem queria ser escritora. Particularmente não acho impossível que, com vontade tão intensa, ela não conseguisse imaginar umas histórias e colocá-las no papel. Argumentei que, com o vasto público leitor aliado ao amplo mercado editorial, ambos sem muitos predicados, sem dúvida alguma ela teria seus escritos publicados. Foi com a contra-resposta que meus questionamentos começaram.

Alice queria, desculpa, precisava de uma mágoa – de preferência amorosa, devido a sua idade – para dar vazão ao tal impulso criativo. Alegava que só seria capaz de criar outros mundos, histórias e pessoas quando a insatisfação com o seu mundo a tomasse plenamente. Sonhar com um enredo seria simples, enquanto ordenar as palavras certas para construir uma imagem e desconstruir outras se mostraria uma tarefa sublime. Só enganando aos seus ela conseguiria iludir os olhos alheios. Uma compensação que poderia vir apenas com a fé oriunda pela dor: dizia que, se acreditasse em Deus, acreditaria num que concederia dádivas às vítimas após generosamente permitir os seus martírios. Sagaz esta moça.

Padre, psicólogo, escrivão, advogado, psiquiatra? Nem ela sabe ao certo quem eu fui. Mas o que sou, agora, trouxe a distorção para sua existência. Alice disse ter gratidão ao nosso amor criado, creditado e assassinado. Quando ouvi, não entendi de imediato. O nosso presente era feliz, havia o amor que nos unia e ela parecia satisfeita, bem alegre apesar da não-escrita. O que eu, que nem sabia ao certo minha profissão, poderia fazer para ela se sentir completa? Esqueci a sua queixa e, quando isto aconteceu, neguei a essência da minha Alice. Porém, dia após dia seguíamos sorridentes: eu esperando que não houvesse o fim e ela, indecifrável, acarinhando meus cabelos.

É duro admitir, mas sou um meio para o seu objetivo, nada mais que isso. A cada nova palavra aqui acrescida, ela vai determinando o meu fim, o nosso. Alice quis ser na dor e para tal ela me criou, inventou nossa paixão e saboreou cada beijo. Foi tão empenhada em mentir que ainda agora, a sós aqui com vocês, eu tenho certeza da minha existência... Sinto aflição pelo meu corpo que vai se extinguindo, ela destrói sua própria obra em busca da juventude sofrida – e não hesita!

Lembro, acho, não sei ao certo, que em nosso primeiro encontro ela tinha dúvidas em agradecer aos pais pela feliz infância ou não. Falei que ela deveria agradecer sim, pelo menos por educação devemos ser gratos a todos os presentes. Só que agora, na porta da minha morte, questiono a necessidade da educação e o valor da sua juventude sofrida. Esta existe tanto quanto eu, então podemos também não existir ou morrermos juntos. Algo há de ser, talvez a dureza do ponto final ou a perversidade de uma exclamação, algo tem que acontecer, ser e alimentar minha esperança.

Alice, vejo agora, foi agraciada com a escrita, podemos aqui ler e concordar.



Comentário ao conto:

O conto “Querida, não me escreva...” apresenta duas importantes questões que serão aqui relacionadas a metaficção. Na primeira abordagem podemos afirmar que o conto é uma ficção que contém dentro dela outra ficção, no mínimo. Assim é pensar em níveis de realidade ou ficção por onde Alice e o narrador transitam: há o nível da realidade do narrador, onde Alice é reconhecida como personagem e como artista criadora; há o nível da Alice como escritora que se debruça perigosamente dentro do nível da ficção do narrador; e o nível do leitor, que enxergaria a ambos como ficcionais. Na realidade do narrador, Alice é apresentada com mais detalhes do que ele, contudo, só podemos conhecê-la através do olhar e das palavras proferidas por ele. Também é neste plano que vamos percebendo, através da voz dele, pequenas pistas que (des)mascaram sua existência ficcional. Em nenhum momento somos informados sobre o seu nome, sua profissão é apenas um oficio que exige uma aparência confiável e ele nada sabe ao certo porque ela, a Alice criadora, não o deixa saber. Contudo, ele reconhece a importância da sua existência para a vida da Alice e acaba por saber que foi criado com o intuito de auxiliar a jovem na autoconstrução da identidade. Ambos sabem que a arte construirá um outro real muito mais intenso e que tal concessão só pode ocorrer com a abstração do que antes era tido como realidade. A relação amorosa do casal é forjada pelas palavras dela que saem da boca dele, é a proclamação da criação que a torna legítima. Entretanto, não é sem consciência e pesar que ele vai contando a historia, seus olhos estão atentos para a sua condição existencial que depende diretamente do gesto criativo da moça. A escrita é apontada como o meio utilizado para se chegar à identidade e, ao mesmo tempo, é a própria identidade a ser alcançada. A segunda abordagem tenta responder às dúvidas existenciais de Alice, sendo ela a escritora que decide o destino da criação ou a moça que buscou na ficção a vivência dramática. Logo no começo do conto somos informados sobre a sua insatisfação pela felicidade plena e ouvimos do narrador que algumas pessoas criam traumas, algumas pessoas como Alice. Enquanto o personagem vai reconhecendo e ditando o final do conto, há o seu reconhecimento definitivo como uma ficção criada por outro. Creio que mesmo sabendo que ela o encerraria a cada nova palavra, o narrador não deixa de pensar em si como algo mais que uma história: ele sabe ser um sonho de alegria e esperança, o meio e o fim que criaram Alice.

Natasha Barbosa




quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A ilha dos membros


Perder a perna não fora nada, quando mais nova ouvia dizerem que as sensações continuavam e pelo visto sempre foram honestos comigo. Membros se vão, sensações perduram: mais do que a carne eu ouço meu coração. Às vezes sentia uma cãibra, mas na maioria das vezes era dor. Porém, o que sentia com frequência era coçar, não se passava uma hora sem que o incômodo viesse.
Falei que incomoda? Claro, mas não por ser chato ou doloroso, o problema é deixar de pensar em Alice. Qualquer tempo roubado da dedicação àquela pequena é um furto à minha vida. Ouço sua voz como uma música eterna que me guia pelas lembranças sem me desviar do cotidiano. Meu filho disse, na época em que ainda era sua mãe, que não podia fugir da realidade, que eu devia reagir e não passar os dias chamando por aqueles que não ouvem mais.
Acendo o cigarro para não esquecer, apago os cigarros para lembrar. Apesar do orgulho que sentia pelos olhos – verdíssimos, iguais aos do pai ausente – foram seus cabelos que marcaram minha lembrança. Que perfume! Que tamanhos variados e formas encantadoras, muitas vezes mergulhei o nariz e ali me senti em casa. Não, eu não fujo da realidade.
A primeira viagem que fizemos foi para uma ilha, o clima quente trouxe um rubor novo na face risonha. Alice detestou tudo, olhava para as pessoas com raiva por estarem ali, descartava a comida mal preparada, falava em voz alta o atraso do local, dos aparelhos ali desconhecidos e do desperdício de Deus em criar semelhante ponto no mapa. Aliás, o que aquela linda cabecinha não se conformava era com a capela, uma construção histórica da qual os moradores possuíam muito orgulho.
- Mas Deus não vai perder seu tempo neste templo, nem a tal da onisciência lhe permitiria tal tédio! Derrubem tudo, saiam de suas casas e as derrubem! Por que também não se afogam no mar? Perpetuar a fraqueza é crime! – Foram algumas das frases que minha querida espalhou pelo lugar. E confesso que ouvir os conselhos arrogantes assim, em voz tão alta, me deixava mais orgulhosa da minha jovem.
Os ombros também eram a minha perdição, gostava de mordiscá-los enquanto ela fumava e não me encarava. Curvos, macios e parte da Alice, como não me achar nela? O cheiro forte do cigarro costuma me desnortear, as mãos carregam o odor de modo definitivo. Em muitos dias, rouca e com um maço de reclamações dos nativos, Alice decidiu que era hora de voltarmos. Foi nossa última viagem.
A perna escureceu aos poucos, alguns conhecidos demonstraram preocupação e, num estágio mais avançado do meu descaso, fui levada aos médicos. Nós três ouvimos com atenção o diagnóstico por, meu filho apreciava a presença séria de Alice e silenciosos concordamos com o procedimento. Como já falei, a perna não atrapalha visto que sua ausência se faz bem presente nas sensações. Nestes dias ambos andavam com um livro nas mãos; o exemplar dela era velho e com as lombadas manchadas, já o dele parecia novo, mas com algumas folhas rasgadas e soltas.
Ambos olhavam para o chão com as bocas fechadas de verdades...
Qual teria sido o motivo eu não sei, não procurarei e nem verterei mais lágrimas. Ouvi os estampidos com certo alívio, se tivesse visto creio que não aguentaria. Depois as pessoas não falaram no assunto e a minha permanência foi determinada como eterna.
Acendo os cigarros para não esquecer, apago o cigarro para comemorar: Alice não nasceu... Que
diferença faz?

Natasha Barbosa