Perder a perna não fora nada, quando mais nova ouvia dizerem que as sensações continuavam e pelo visto sempre foram honestos comigo. Membros se vão, sensações perduram: mais do que a carne eu ouço meu coração. Às vezes sentia uma cãibra, mas na maioria das vezes era dor. Porém, o que sentia com frequência era coçar, não se passava uma hora sem que o incômodo viesse.
Falei que incomoda? Claro, mas não por ser chato ou doloroso, o problema é deixar de pensar em Alice. Qualquer tempo roubado da dedicação àquela pequena é um furto à minha vida. Ouço sua voz como uma música eterna que me guia pelas lembranças sem me desviar do cotidiano. Meu filho disse, na época em que ainda era sua mãe, que não podia fugir da realidade, que eu devia reagir e não passar os dias chamando por aqueles que não ouvem mais.
Acendo o cigarro para não esquecer, apago os cigarros para lembrar. Apesar do orgulho que sentia pelos olhos – verdíssimos, iguais aos do pai ausente – foram seus cabelos que marcaram minha lembrança. Que perfume! Que tamanhos variados e formas encantadoras, muitas vezes mergulhei o nariz e ali me senti em casa. Não, eu não fujo da realidade.
A primeira viagem que fizemos foi para uma ilha, o clima quente trouxe um rubor novo na face risonha. Alice detestou tudo, olhava para as pessoas com raiva por estarem ali, descartava a comida mal preparada, falava em voz alta o atraso do local, dos aparelhos ali desconhecidos e do desperdício de Deus em criar semelhante ponto no mapa. Aliás, o que aquela linda cabecinha não se conformava era com a capela, uma construção histórica da qual os moradores possuíam muito orgulho.
- Mas Deus não vai perder seu tempo neste templo, nem a tal da onisciência lhe permitiria tal tédio! Derrubem tudo, saiam de suas casas e as derrubem! Por que também não se afogam no mar? Perpetuar a fraqueza é crime! – Foram algumas das frases que minha querida espalhou pelo lugar. E confesso que ouvir os conselhos arrogantes assim, em voz tão alta, me deixava mais orgulhosa da minha jovem.
Os ombros também eram a minha perdição, gostava de mordiscá-los enquanto ela fumava e não me encarava. Curvos, macios e parte da Alice, como não me achar nela? O cheiro forte do cigarro costuma me desnortear, as mãos carregam o odor de modo definitivo. Em muitos dias, rouca e com um maço de reclamações dos nativos, Alice decidiu que era hora de voltarmos. Foi nossa última viagem.
A perna escureceu aos poucos, alguns conhecidos demonstraram preocupação e, num estágio mais avançado do meu descaso, fui levada aos médicos. Nós três ouvimos com atenção o diagnóstico por, meu filho apreciava a presença séria de Alice e silenciosos concordamos com o procedimento. Como já falei, a perna não atrapalha visto que sua ausência se faz bem presente nas sensações. Nestes dias ambos andavam com um livro nas mãos; o exemplar dela era velho e com as lombadas manchadas, já o dele parecia novo, mas com algumas folhas rasgadas e soltas.
Ambos olhavam para o chão com as bocas fechadas de verdades...
Qual teria sido o motivo eu não sei, não procurarei e nem verterei mais lágrimas. Ouvi os estampidos com certo alívio, se tivesse visto creio que não aguentaria. Depois as pessoas não falaram no assunto e a minha permanência foi determinada como eterna.
Acendo os cigarros para não esquecer, apago o cigarro para comemorar: Alice não nasceu... Que
diferença faz?
Natasha Barbosa