terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Sem Volta

São muitas às vezes em que morri afogada. Ironicamente morro de medo de tragédias e catástrofes naturais, talvez por isso seja perseguida por elas. O ar costuma faltar nos locais em que todos estão bem. Tenho feito muito esforço para parecer normal, no meio de todos finjo não me desesperar com o futuro. Como andar sabendo que tudo vai cair? Sei que eu não só posso como irei cair e isso destrói qualquer passo futuro. Uma jovem falava em viver, em continuar justamente por saber o caminho, admiro a maquiagem usada no rosto, tão bonita! Na vez mais recente estava correndo com meu filho quando esbarrei com ela. Raissa é linda, tem um imenso sorriso que serve muito bem para esconder a raiva. Sem deixar de sorrir ela indicou o caminho por entre as árvores, falou do Sol que queimava e pediu, já conhecendo o passado, para ficar com a criança. Deixei.

***

— Eu também já fui como você!

— Natalice?! Como? Meu Deus como você?... O que você...?!

— Eu também já fui jovem como você...

Não tenho como disfarçar o espanto, o horror que sinto ao ver ele deitado em cima dela. Ela já não é nova, seu rosto enrugado não esconde as olheiras e nem as marcas do tempo malpassado. O cabelo liso, antes escuro, está longo e meio cinza, quase desbotado. Talvez eles também tenham vergonha de estarem ali. Ou apenas os fios possuam consciência da situação obscena e cruel em que se encontram.

— Conta, por favor, conta... — Como odeio amar aqueles olhos, a voz embargada dói fundo. As coisas não estão onde deveriam estar, há ordem na desordem métrica do mundo.

Apesar de estarem completamente vestidos, a cena é nojenta, eles se deleitaram no sexo. Vejo o abandono dos membros dele, os olhos vermelhos como se estivesse emocionado e o ouço pedindo para ela contar. Mas contar o quê? O tom é suplicante enquanto não consigo deixar de pensar na beleza daquele rosto. Gosto tanto dele que temo cada segundo em sua presença.

Não é para estarmos aqui, não sei como chegamos. Vejo que ele não nota a minha presença, continua a encarando e suplicando. Medíocre. Na minha frente é insuportável. Que engraçado, ele sabe.

Natalice continuou sem olhar para ele, sei que ela me adora, mas será que sabe que eu o amo? E ela insiste em falar:

— ... quando fui como você também era uma estudante e também tive um namorado. Éramos felizes, até que ele acabou comigo. Querida, não restou nada, ele foi atrás de mim e assim, talvez deitada, talvez complacente, ele acabou comigo. Por favor, não fique assustada, alguém também irá acabar com você. Não chore, guarde para um pouco mais tarde, eu prometo que não vai demorar.

Num rompante ela mudou o tom e entoou o canto mais belo que já ouvi. Você não vai saber como é, não irei convidar e nem compartilhar meu tormento. Como, você insiste? Leia um pouco do que poderia ter sido pronunciado:

— Ouvimos as esperanças que cercam seu lar, mas ninguém defendeu seu nome na rua. Sua filha desconhece a máquina do mundo, há homens que lhe anulam o corpo e há homens que lhe iluminam a mente. Bradamos orações para salvarem teu lar e no infortúnio a solidão não é cruel. A jovem já conheceu a chuva, mente e corpo formados pelos atos. Existe dentro de ti a força para negar o sangue. Irás maltratar o sentimento em mim para destruir o humano em ti.

A velha continuou deitada, não fez nenhum gesto e até parecia indiferente ao peso alheio ante seu corpo magro. Calou-se. E eu fugi.

A praia não é desconhecida, estive aqui não faz muitos anos. O sol vermelho também não me desagrada, li notícias dizendo que o novo astro era danoso aos seres humanos. Pode ser que sim, talvez isto explique os fatos futuros. Não gosto da areia, tenho pavor do mar e o vento só faz bagunçar meu cabelo. Raissa sentou ao meu lado e me deu um prendedor verde, falou que o cabelo ficaria seguro assim. Não precisei agradecer, ela sabe.

— Cadê o menino?

— Minha flor, você não precisa esconder. Eu também os vi deitados e sabia que ele estava velho, só não sabia que ela ainda vivia. Desculpe.

— Tudo bem, não importa... Por favor, vamos fingir que importou um dia. Raissa, não ria, é sério! – Se ela continuar rindo eu derreto, talvez só ela conheça o meu desejo. Poderia dar um abraço? Não perguntei.

— Florzinha, você é sempre tão a mesma. Não mudaria para aceitá-lo e menos ainda para enxergar. Vamos até a água? Aqui o mar é profundo e revolto, é quase certo que não voltaremos.

— Posso segurar a sua mão?

Quem nos observou viu que ela deixou e apertou mais forte enquanto andávamos. Contudo, apesar da visão privilegiada você jamais verá o retorno. Lá o amor chegou.

Natasha Barbosa
(Arte Tanz der träume, do Martin Eder, 2005.)




terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Querida, não me escreva...



Quando entrou em minha sala, estranhei sua pouca beleza. Sei que algum escritor famoso é o culpado pela imagem errônea que desenhei, pois depois de lê-lo passei a achar que toda Alice deveria ter um ar místico, heroico e que seria minimamente bonita. No entanto a minha Alice não é assim, ops, ela também ainda não é minha.

A sua queixa era simples e bem incomum: seus pais lhe deram uma infância feliz e a felicidade era tão plena que refletia até hoje, nos seus 22 anos.

Procuro sempre manter uma expressão comedida, confiável, porque é o esperado no meu ofício. E o esforço nem é muito, já que as pessoas, ao me procurarem tomadas pelo desespero, fazem o restante do trabalho ao depositarem em mim as suas esperanças. Contudo, com esta jovem foi necessário segurar o riso e a vasta seleção de comentários sarcásticos que vieram à cabeça.

As pessoas reclamam de problemas, de conflitos cujas feridas estão a doer. Claro que não são poucos os que aumentam a dor e os danos, que competem pela história de maior ruína.
Lembro de presenciar uma conversa entre duas senhoras e não ficar surpreso com o conteúdo. A mais velha chorava o péssimo casamento, a saudade dos filhos e a mágoa pela incompreensão dos rebentos, enquanto a mais nova, sem enumerar com clareza, afirmava ter sofrido tanto, mas tanto nesta vida, que a outra se sentiria abençoada pelos céus diante das várias desgraças. Ciente da minha posição e mais ainda consciente da ignorância delas em relação a minha pessoa, dei voz à ironia mental: “Então, para qual das duas devo entregar o troféu ‘Vida Vale de Lágrimas’? Aliás, as caixas de Lexotan são suficientes ou devo acrescentar uma garrafa de cachaça?”.

Vocês podem até imaginar o misto de surpresa e raiva que dominou aqueles olhares secos, mas duvido que entendam o prazer que senti... E a culpa, não esqueçamos da culpa. Há outras pessoas que intensificam a extensão do trauma e até os criam, dando condição física a sua imaginação. Alice, entretanto, era feliz e não negava a constância desse estado. A sua questão era o dano que a estabilidade de uma vida realmente satisfatória poderia causar na sua capacidade artística. Para ela, o prazer significava o encontro com a arte e a arte implicava justamente sentir o prazer. Costumava apreciar a beleza, em especial as naturais e gratuitas, dizia que as construídas possuíam intenções e esperas demais. Defendia, paradoxalmente, que uma boa dose de sofrimento seria o elemento catalisador essencial para qualquer criação artística. Alguns são órfãos de pais vivos ou mortos, outros amam sem resposta, uns apanham por respirar ou até sobrevivem pelo sofrer. Que justiça divina era esta que lhe concedera só alegrias? Como esperavam que ela se reconstruísse numa bela flor sem estar ao menos derrocada?

Minha – agora posso declarar a posse, indevida, mas concluída – jovem queria ser escritora. Particularmente não acho impossível que, com vontade tão intensa, ela não conseguisse imaginar umas histórias e colocá-las no papel. Argumentei que, com o vasto público leitor aliado ao amplo mercado editorial, ambos sem muitos predicados, sem dúvida alguma ela teria seus escritos publicados. Foi com a contra-resposta que meus questionamentos começaram.

Alice queria, desculpa, precisava de uma mágoa – de preferência amorosa, devido a sua idade – para dar vazão ao tal impulso criativo. Alegava que só seria capaz de criar outros mundos, histórias e pessoas quando a insatisfação com o seu mundo a tomasse plenamente. Sonhar com um enredo seria simples, enquanto ordenar as palavras certas para construir uma imagem e desconstruir outras se mostraria uma tarefa sublime. Só enganando aos seus ela conseguiria iludir os olhos alheios. Uma compensação que poderia vir apenas com a fé oriunda pela dor: dizia que, se acreditasse em Deus, acreditaria num que concederia dádivas às vítimas após generosamente permitir os seus martírios. Sagaz esta moça.

Padre, psicólogo, escrivão, advogado, psiquiatra? Nem ela sabe ao certo quem eu fui. Mas o que sou, agora, trouxe a distorção para sua existência. Alice disse ter gratidão ao nosso amor criado, creditado e assassinado. Quando ouvi, não entendi de imediato. O nosso presente era feliz, havia o amor que nos unia e ela parecia satisfeita, bem alegre apesar da não-escrita. O que eu, que nem sabia ao certo minha profissão, poderia fazer para ela se sentir completa? Esqueci a sua queixa e, quando isto aconteceu, neguei a essência da minha Alice. Porém, dia após dia seguíamos sorridentes: eu esperando que não houvesse o fim e ela, indecifrável, acarinhando meus cabelos.

É duro admitir, mas sou um meio para o seu objetivo, nada mais que isso. A cada nova palavra aqui acrescida, ela vai determinando o meu fim, o nosso. Alice quis ser na dor e para tal ela me criou, inventou nossa paixão e saboreou cada beijo. Foi tão empenhada em mentir que ainda agora, a sós aqui com vocês, eu tenho certeza da minha existência... Sinto aflição pelo meu corpo que vai se extinguindo, ela destrói sua própria obra em busca da juventude sofrida – e não hesita!

Lembro, acho, não sei ao certo, que em nosso primeiro encontro ela tinha dúvidas em agradecer aos pais pela feliz infância ou não. Falei que ela deveria agradecer sim, pelo menos por educação devemos ser gratos a todos os presentes. Só que agora, na porta da minha morte, questiono a necessidade da educação e o valor da sua juventude sofrida. Esta existe tanto quanto eu, então podemos também não existir ou morrermos juntos. Algo há de ser, talvez a dureza do ponto final ou a perversidade de uma exclamação, algo tem que acontecer, ser e alimentar minha esperança.

Alice, vejo agora, foi agraciada com a escrita, podemos aqui ler e concordar.



Comentário ao conto:

O conto “Querida, não me escreva...” apresenta duas importantes questões que serão aqui relacionadas a metaficção. Na primeira abordagem podemos afirmar que o conto é uma ficção que contém dentro dela outra ficção, no mínimo. Assim é pensar em níveis de realidade ou ficção por onde Alice e o narrador transitam: há o nível da realidade do narrador, onde Alice é reconhecida como personagem e como artista criadora; há o nível da Alice como escritora que se debruça perigosamente dentro do nível da ficção do narrador; e o nível do leitor, que enxergaria a ambos como ficcionais. Na realidade do narrador, Alice é apresentada com mais detalhes do que ele, contudo, só podemos conhecê-la através do olhar e das palavras proferidas por ele. Também é neste plano que vamos percebendo, através da voz dele, pequenas pistas que (des)mascaram sua existência ficcional. Em nenhum momento somos informados sobre o seu nome, sua profissão é apenas um oficio que exige uma aparência confiável e ele nada sabe ao certo porque ela, a Alice criadora, não o deixa saber. Contudo, ele reconhece a importância da sua existência para a vida da Alice e acaba por saber que foi criado com o intuito de auxiliar a jovem na autoconstrução da identidade. Ambos sabem que a arte construirá um outro real muito mais intenso e que tal concessão só pode ocorrer com a abstração do que antes era tido como realidade. A relação amorosa do casal é forjada pelas palavras dela que saem da boca dele, é a proclamação da criação que a torna legítima. Entretanto, não é sem consciência e pesar que ele vai contando a historia, seus olhos estão atentos para a sua condição existencial que depende diretamente do gesto criativo da moça. A escrita é apontada como o meio utilizado para se chegar à identidade e, ao mesmo tempo, é a própria identidade a ser alcançada. A segunda abordagem tenta responder às dúvidas existenciais de Alice, sendo ela a escritora que decide o destino da criação ou a moça que buscou na ficção a vivência dramática. Logo no começo do conto somos informados sobre a sua insatisfação pela felicidade plena e ouvimos do narrador que algumas pessoas criam traumas, algumas pessoas como Alice. Enquanto o personagem vai reconhecendo e ditando o final do conto, há o seu reconhecimento definitivo como uma ficção criada por outro. Creio que mesmo sabendo que ela o encerraria a cada nova palavra, o narrador não deixa de pensar em si como algo mais que uma história: ele sabe ser um sonho de alegria e esperança, o meio e o fim que criaram Alice.

Natasha Barbosa