terça-feira, 26 de abril de 2011

Quase não posso me lembrar.




Fui a um parque de diversão, não era bonito nem feio, era um parque. Dentro de mim nada se movida, e muitas bolas coloridas me mostravam o caminho dos brinquedos mais atraentes. Não me lembro muito bem quem estava comigo, acho que era ele. Mas acredito que ele não lembraria tanto assim de mim. No chão de pedrinhas picadas entre meus pedacinhos de eus construíam caminhos que me levavam pra longe.
Sei que não posso me lembrar muito bem, mas as vezes me lembro bem. Meu vestido era verde quase azul e ele vestia uma camisa vermelha, triste camisa vermelha. Acho que era o fim da tarde, naquela hora inesata que o sol fica alaranjado. O sol não era amarelo, nem a lua azul. Tudo me parecia um tanto rosado, menos eu.
Entrei em muitos brinquedos, não ri, eu já sabia de tudo. Não posso mentir que já sabia. Seus risos ironizavam tudo aquilo, e o cor de rosa foi ganhando um tom azulado, escuro. Mas não poderia me lembrar, fiz força pra esquecer. Meus pés poderiam ter ido em tantas direções que mal poderia dizer  porque não fui, excesso opções confundem decisões difíceis. Não poderia optar. Fiquei.
Naquele banco de tábuas paralelamente pregadas, me sentei. Ao lado da minha mão direita tinha um risco na madeira em forma de coração. La estava escrito um “p” pouco torto e um “s” escrito com força. O “s” provavelmente era muito amado ou odiado, tanto que entortou o “p”. Ele segurou a minha mão. Enterrou seus olhos no infinito. Não poderia ser mais claro. Sumiu. Não poderia me Lembrar de nada após isso, sumiu na minha memória. Não sei,  não vi. Sinceramente não me lembro de nada.
Realmente não me lembro desse dia, de bolas coloridas, camisa vermelha e céu que agora é negro.

JULIANA SANCHES

BEATRIZ



Entre quatro paredes e um teto. Beatriz estava. Tinha em mãos um livro que lhe foi indicado por um professor, que ela não conhecia muito bem, porém conhecia o bastante para que ele a conhecesse bem. Antes de abrir o livro a moça olhava ao seu redor, como se fosse preciso que gravasse aquele momento, como se tudo aquilo lhe fosse escapar, olhava pro grande espelho ao lado da escrivaninha.
Sabia ela de alguma forma que de fato não voltaria após a leitura, e se perguntava como poderia ser tão forte essa certeza, sendo que não conhecia o livro nem seu conteúdo.
De uma brecha possível ouvir os sons da rua e um certo movimento na casa. Bia, se encosta levemente em sua cadeira, tenta sentir-se confortável, mesmo sabendo que o desconforto que a rodeava não era físico. Inutilmente levanta as pernas, e as apóia na cama ao lado. Parecia querer adiar aquela leitura com tanta intensidade quanto sabia que precisava ler.
Os sons ainda estavam lá. Ela abre lentamente o livro, usa de tanta delicadeza que uma valsa lenta quase toca esse momento. Ao ler as primeiras páginas ela se lembra vagamente de um passado esquecido. Já não se pode ouvir outro som além dos seus. Como se chorasse a alegria de se rever.
Olhar pro livro era olha pra dentro de si. Desejos intermináveis que aquela leitura nunca passe da ultima letra. O livro fala de Beatriz, e de quem mais o poder ler com os olhos mais profundos de seu ser. Livro espelho do interior. A caixa se abre.
A música toca nas mão da moça, uma alegria estonteante toma seu ser. Ela já pode ver. Nada mais faz sentido, e tudo se encontra ao seu redor. Deliciosamente as páginas vão sendo passadas. E vagarosamente a alma é decifrada pelos passos da bailarina.
Corpo. Luz. Vida. Beatriz nasceu novamente dentro de uma nota musical. A moça fecha o livro com tanto carinho, agradecendo a vida que lhe foi dada. Abre a porta de seu guarda-roupa, pega uma caixa empoeirada. Com cuidado abre. Tira sua sapatilhas antigas. Calça. E dança ao som de sua alma. Gira. Da vida aos tornozelos. Os ouvido escutam com tanta clareza.
A bailarina dança ! Morre. Alguém fechou a caixinha de jóias.

JULIANA SANCHES

domingo, 17 de abril de 2011

O meu futuro num ado presente

Meu futuro não é feito de luz e nem com fé


Mas ele existe, anda por aqui


Não é com o olhar que o vejo, mas percebo sua eterna chegada pelos perfumes


Aroma de calor, de barba por fazer, sorriso divertido e boas músicas


O meu futuro é feito de contato, gargalhadas e mãos cúmplices


Nas noites percebo que não creio nas luminuras: eu quero são transparências!


Imagino o chão que pisarei e o roçar dos tecidos


Não é que apenas penso no futuro, mas é que o presente corre, me abandona


E o passado se faz dono e criador dos versos


No meu futuro... Ah, nele serei letras, sons e cores impronunciáveis


Não é necessário ver onde não há luz , é só passar


E quiçá entender que plantei ontem, este mesmo poema, no meu futuro.

Natasha Barbosa

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Bom dia com açúcar e sem afeto

Bom dia com açúcar e sem afeto

De manhã eu levantei, fiz café e lavei a louça

Hoje eu acordei e não voltei a dormir

Não por tristeza penso no sono, no frio da chuva e na paz dos sonhos esquecidos

Ando e considero cada levantar uma celebração, hoje eu levantei e andei

Como não pensar em voltar?

Tentei me sabotar com alegres ilusões de perfídia

Sentada e sentindo o Sol aquecer meus dedos

Penso que sou construída de sonhos e pele, sou leve

Não é só por beber o café ou escrever ou ler com prazer

Não somente pela força que se faz luta e pelos ferimentos que cantam vitória

É que todo dia luto para lembrar, para esperar, para aceitar e não gritar

São batalhas de esperança de vida

Caminhos que desabam aos movimentos de paixão

Não espero erguer firmezas, apenas levanto e ando

Somos justamente quem não queríamos ser

Conheço aquelas que me adotaram, vestiram e criaram

Tanto digo conhecer que anseio as horas, as falas e as comidas que nos unem

Em nossas conversas, a pressa se transforma no infinito de ouvir e ser espelhado

Quem não quer enxergar? Quem não quis?

Veriam meus olhos vazios, haveria vermelhidão e cansaço

Mas hoje eu acordei: não foi luta, é vida.


Natasha Barbosa

domingo, 3 de abril de 2011

III

O impossível sempre tido como impossível.

Tudo vivido e gozado quando era considerado inalcançável.

Mar de metáforas? Asfixia de emoções?

Fomos e somos exatamente como deveríamos ser.



Natasha Barbosa