terça-feira, 26 de abril de 2011

BEATRIZ



Entre quatro paredes e um teto. Beatriz estava. Tinha em mãos um livro que lhe foi indicado por um professor, que ela não conhecia muito bem, porém conhecia o bastante para que ele a conhecesse bem. Antes de abrir o livro a moça olhava ao seu redor, como se fosse preciso que gravasse aquele momento, como se tudo aquilo lhe fosse escapar, olhava pro grande espelho ao lado da escrivaninha.
Sabia ela de alguma forma que de fato não voltaria após a leitura, e se perguntava como poderia ser tão forte essa certeza, sendo que não conhecia o livro nem seu conteúdo.
De uma brecha possível ouvir os sons da rua e um certo movimento na casa. Bia, se encosta levemente em sua cadeira, tenta sentir-se confortável, mesmo sabendo que o desconforto que a rodeava não era físico. Inutilmente levanta as pernas, e as apóia na cama ao lado. Parecia querer adiar aquela leitura com tanta intensidade quanto sabia que precisava ler.
Os sons ainda estavam lá. Ela abre lentamente o livro, usa de tanta delicadeza que uma valsa lenta quase toca esse momento. Ao ler as primeiras páginas ela se lembra vagamente de um passado esquecido. Já não se pode ouvir outro som além dos seus. Como se chorasse a alegria de se rever.
Olhar pro livro era olha pra dentro de si. Desejos intermináveis que aquela leitura nunca passe da ultima letra. O livro fala de Beatriz, e de quem mais o poder ler com os olhos mais profundos de seu ser. Livro espelho do interior. A caixa se abre.
A música toca nas mão da moça, uma alegria estonteante toma seu ser. Ela já pode ver. Nada mais faz sentido, e tudo se encontra ao seu redor. Deliciosamente as páginas vão sendo passadas. E vagarosamente a alma é decifrada pelos passos da bailarina.
Corpo. Luz. Vida. Beatriz nasceu novamente dentro de uma nota musical. A moça fecha o livro com tanto carinho, agradecendo a vida que lhe foi dada. Abre a porta de seu guarda-roupa, pega uma caixa empoeirada. Com cuidado abre. Tira sua sapatilhas antigas. Calça. E dança ao som de sua alma. Gira. Da vida aos tornozelos. Os ouvido escutam com tanta clareza.
A bailarina dança ! Morre. Alguém fechou a caixinha de jóias.

JULIANA SANCHES

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