-Posso tirar uma foto?
Bárbara recusou pela primeira vez de modo acanhado e assim fui achando que minha noiva era tímida. Menos mal, não desejo uma desavergonhada como esposa.
Passado o tempo quis registrar minha jovem em nossos passeios, adoro longas caminhadas e em sua companhia éramos do mesmo tamanho. Quando o Sol cintilava na sua face corada era o momento em que mais desejava fotografar Bárbara. Acho fascinante a luz que invade, destaca os tons e deixa os contornos suaves, difusos. Até a chegada do verão, em um dia quente como o esperado, não sabia que iria ser tomado em casamento. Foi num trajeto curto que perdi o tom, enquanto estava ao lado dela as idéias ficaram claras e óbvias: seria um crime contra todo o meu ser não ficar com ela.
Mas ela negava, no começo eram argumentos tímidos, falava que não era muito bonita e que não via sentido me gastar numa bobeira dessas. Realmente a sua beleza não era estonteante e nem desmedida, era minha. A cada dia que passa seus 18 vão se distanciando, se perdendo no ganhar do tempo.
Gostaria que fôssemos agora por todo o tempo, sonhei que mantinha Bárbara fresca e imutável. Poderia assim reter o nosso amor num instante... Comprarei logo uma moldura, de pedra, aço ou qualquer outro material de imensa resistência. Com carinho explicarei o desejo em nos eternizar, em mostrar aos futuros o quanto somos e seremos felizes.
Entre sorrisos dizia que a sua alma ficaria presa no papel, sorria e baixava os olhos perguntando se era meu desejo prender sua alma. No casamento todas as tentativas foram frustradas pela sua rapidez em virar o rosto, nem daquela que seria o destaque em nossa sala Bárbara aceitou o flash. Achei cômica a justificativa, parecia mais uma frase qualquer dada a desviar minha atenção.
Depois os argumentos ganharam agressividade; ficaram firmes no questionamento da minha obsessão em registrá-la. Falou que a ânsia em fotografá-la só demonstrava a minha pouca segurança em nosso amor, que eu estava era escancarando nossa efemeridade e que tentar capturar o instante seria destruir o mesmo. E mais, questionou a força de meus sentimentos por ela, uma lógica doentia, gritou que se eu a amasse de verdade não ficaria insistindo em recortar um pedaço dela enquanto o amor deveria ser pelo todo. Tentou explicar que a sua vida não era restrita ao meu olhar, mas que tinha grande alegria em ser o alvo dos meus olhos e que temia a minha obsessão pelo estável já que ela envelheceria. Tinha receio de não ser suficiente a lembrança da memória, que eu fosse em desatino procurar outras formas do reflexo que só existiria como reflexo.
O tempo passou com beijos, passeios e alegrias, nada interrompeu o fluxo suave do sermos em nós. Não há em nosso lar máquina ou vontade de fotografar, não seriam mesmo suficientes...
Foi preciso firmar a cabeça, limpar as mãos, os pregos e verificar se o ângulo estava bom. Os olhos permaneceriam fechados, sempre impedidos de me tragarem e de mostrarem o que não serão.
Perfeito, minha Bárbara ficou linda na parede.
Por Natasha Barbosa
O melhor de todos pra mim é este ai... Natasha, sou sua fã!
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