No fim eu estava nova, revigorada e forte como nunca fui. Não houve perdas em meu corpo e as lembranças dos conhecidos não eram tão fortes a ponto de serem lembradas. Os fatos só aconteceram porque eu não calei, escutei os versos de amor e, tola, entoei os meus.
Samuel veio com todas as dores que 11 horas de parto podem causar, veio silencioso e com os olhos entreabertos ao me observar. Em poucos dias estava forte, um rapaz lindo a andar pelos vastos. Disse que não iria retornar aos meus braços maternos, acreditava ser um grande herói destinado a salvar as crianças do mundo. Ouvi depois suas façanhas sem entusiasmo, temia pela violência que, invariavelmente, o podaria.
Passado um mês Guilherme chegou tão repentino quanto o ventre que cresceu em mim. Pensei que já estaria acostumada ao parir e a todas as suas contrações e ofegares, contudo, o corpo se constrói para ser destruído a cada nova dor. Nos mesmos poucos dias cresceu um jovem alegre, firme na mesma coragem de andar pelo mundo. Fechei meus ouvidos, mas não deixei de conhecer a vileza que o conduziria. Suas crueldades eram gritadas em minha janela por todos em imensos instantes e novamente temi pela violência.
Com Carlos não houve surpresa, apenas a dor cruciante. Sua beleza era comparável com as de seus irmãos, assim como a natureza máscula. Indaguei, pela primeira vez, qual seria o intuito de suas andanças. Ele sorriu e respondeu que não queria ser herói e nem vilão, apenas seria um homem qualquer, cujas ações teriam um pouco de tudo e um muito de nada. Novamente temi por aquele fruto desgarrado: ser homem, pura e simplesmente, atrairia uma violência maior a sua face.
Murilo nasceu na surpresa de não me causar dor e nem desespero, mas foi o filho para o qual meu ventre tomou uma coloração negra. Em poucos instantes ergueu a fronte e me chamou à maternidade, ele queria o alimento. Este filho não teve pressa em sair ao mundo, apesar do crescimento que já ultrapassa os irmãos. Ouvi as histórias de sua vida sem o medo da violência porque a boca que as contava estava ali, sem cicatrizes na carne rosada. Também fui apresentada ao fluxo que conduziria aquela existência: meu mais novo iria salvar e trazer ao lar os mais velhos, todos perdidos na ânsia de existir. Não temi por seu destino porque aquele era um poeta, um inventor de doces e amores a serem divididos pelas pessoas mesmo que estivessem escondidos no fundo. Talvez seu vazio fosse tão imenso, tão generoso que poderia anular todos os erros dos outros. Sonho com suas histórias e acordo em lágrimas, é a beleza mais triste que já vivi.
De uma só vez meus rebentos voltaram a mim, todos mudos apesar da boca de Murilo ser a única a estar costurada. Altivos na postura e apáticos na face, meu ventre os atraiu à tranquilidade. Um a um foram diminuindo ao encarar meus olhos secos de lágrimas, um a um eles retornaram.
Por Natasha Barbosa
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