Num vasto azul, mais vasto que o azul, estávamos Ulisses e eu. O barco era grande, bem grande, de onde eu estava, mal poderia ver suas extremidades; um pouco sujo, porém lindo. Sentados sobre uma espécie de baú conversávamos, e éramos íntimos eu já o conhecia!
Tomei a liberdade de lhe fazer algumas perguntas e com um sorriso no rosto ele ia me dando algumas respostas.
A primeira pergunta foi: como era conhecer um Deus de perto ?
Com um breve sorriso, ele disse que era tão temeroso como olhar para dentro de si! Achei engraçado... mas entendi!
Por alguns momentos pude ver os traços dos seus olhos, seu rosto, sua pele, seus sonhos! E pra falar a verdade, acho que às vezes ele esquecia de querer voltar à Ítaca! Vivendo tantas aventuras, quem gostaria de voltar? Seus cabelos eram castanhos, quase ruivos, deve ser o sol, seu nariz era delicado; em volto dos olhos muitas linhas falavam por ele, tinha uma barba, mas não tinha uma aparência de desleixo. As mãos, elas nunca estavam sós, sempre seguravam-se e conforme falava de certa forma elas se apertavam e soltavam.
De palavras, eu não lembro muitas, mas lembro de algo importante.
-“As respostas de todas as perguntas estão dentro das próprias perguntas.”
Fiquei pensando nisso, acho que foi ele que disse. A tolice é não enxergá-las antes de perguntar, ou enxergar, e mesmo assim perguntar por não acreditar nelas. Confesso que isso me tomou alguns minutos... mas, logo, a curiosidade me retomou o ser e voltei ao diálogo.
Dessa vez antes que eu abrisse a boca, ao puxar um pouco de ar para falar, Ulisses levantou, cortou minha fala, esqueci o que ia dizer! Levantei também. Andamos até a beira do barco, olhei para suas mãos sobre a madeira. Mãos fortes, unhas grossas, acho que nunca havia visto mãos com tantas linhas nos dedos; parecia que ele tinha lidado com situações que exigissem muito delas. Pensando bem... ele é o Odisseu!
Naquele momento, ele falou sobre o homem, sobre as certezas que temos, que perdemos. Lembro que pensei em algumas coisas, mas não consigo especificar. Como ele podia ser tão sábio? Enfrentar o ciclope tudo bem, mas saber sobre a mente humana?! Achei impressionante! Queria poder me lembrar...
Nesse dia não anoiteceu. Talvez Cronos, quisesse ouvir mais. Estranho que não estávamos cansados. Pensei que deveria descançar, mas ele estava disposto a continuar a conversa.
Sorrindo, me olhou, ele me seduzia, seus sonhos me movimentavam e os meus silenciavam o grande Ulisses.
Juliana Sanches
Ulisses! mas q saudade desse conto!!!
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