terça-feira, 9 de novembro de 2010

Sem abnegação, por favor.

Querido Samuel,

mais do que sangue do meu sangue, você é a personificação da humanidade que eu não possuo. Meu filho, sou mais sua vilã do que heroína, sou mulher antes e acima de tudo. Desde nova desejei a maternidade, sonhava com um bebê lindo, um ser que seria alegre e triste sem medo algum, alguém a ser rendido pelas amarras do amor.

Não, amar não é libertar, fazer o bem e menos ainda desejar a felicidade alheia. Se quero você bem é porque sua tranqüilidade me permitirá ser em sua alma, poderei estar bem ao repousar na sombra da sua frutífera alegria. Compartilhar? O verbo certo talvez seja roubar ou apropriar, mais o último já que sempre consentimos alegando a tal cumplicidade na relação a dois. Não se iluda com generosidades superficiais: nenhuma mulher permitirá a sua alegria com ela e com outras ao mesmo tempo, e olha que a sua alegria seria bem grande e completa. Em alguns casos ela consideraria lhe desejar algo bom após o término do relacionamento, mas apenas com o intuito de tranqüilizar a consciência - dela - e ser liberta das obrigações inerentes a posse. Meu bem, é o olho do dono que engorda o amor.

Contudo, meu filho, não é que eu não te ame.

Mas ás vezes é preciso insurgir e você precisa conhecer a dúvida. Imagina como me é difícil passar todos os momentos do meu dia pensando na qualidade da existência de alguém que não sou eu? Seu amor me dominou de tal forma que apenas reconheço a minha subjugação: sou a mãe apenas e nada posso mudar a respeito. Só de refletir nossa ligação meu corpo tem febre e minha mente bloqueia a concentração, devaneios me anulam.

Até que num dia cotidiano como todos os outros milhares que vivemos e os quais continuaremos vivendo, você sentiu fome. Apertou minha mão, sustentou o olhar e exigiu o alimento. Ali o mundo se abriu e transbordou em luz, disfarcei a sabedoria e respirei pausadamente para controlar o acelerado coração. Eu tenho a chance, é possível! Se não consigo fugir do afeto devoto que sinto, posso fazer algo muito maior: tenho agora a permissão para senti-lo! Em todos os momentos continuarei te amando, cuidando e virando a mesa com cuidado. Você usará a corrente amorosa que me prende, será a tua anuência aos meus cuidados e afetos que me fará vencer e ser.

-Filho, você quer umas bolachas junto com o seu leitinho?

Por Natasha Barbosa

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